segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

PÍLULA DE UM DIA DE VERÃO - Número 36

Fotografia de J. Henry Fair

Um dia e, após, o outro. Fico em vigília, repetindo a mim mesmo pra essa memória não se esvair com o vento que passa no litoral. Nem sempre esse despertar permanente funciona, mas conto com estranhas contribuições. Conto com sonhos. Ou com a mosca que, de tanto incomodar, só me resta o corpo levantar. Quando sinto o espírito, de novo, livre, uma brisa passa. "A praia passa tudo", profetizou Luísa, olhos semicerrados. E se meus pensamentos caminham no terreno do desinteresse, uma borboleta amarela e preta sobrevoa às 11h, perto dos rochedos do mar. Subo as pedras, mas nem lembro bem o nome do rapaz cor de magma. E se ele, por mim, insiste em lembrar, passáros cantam. Um canto de tal modo absoluto que soa singular. Estou ao contrário do rastro do bom senso na areia? Bobagem. Estas são as pequenas mágicas do dia, tão pouco examinadas. Que explicação então teria o longo e profundo abraço de Anike? Talvez a menina mais linda da noite e do dia. Depois vi um moço portador de alguma perda, mas o que ponderei é que ele parecia hábil, e formoso. E o jovem tão cabeludo ao pôr-do-sol? Pastor de cavalos das dunas. Estava em lótus, sob a sombra das flores de um pequeno arbusto e de uma imensa extensão de água salgada. O mar Cáspio. O mar Vermelho. Ou aquele de J. Henry Fair, do dia e da poesia de depois de amanhã. E amanhã pode até ser que a saudade vá embora. Tal qual gosto de pão de alho. Tão bom quanto rever Rafa, do Odeon. Ou o gosto de canela que Peter, o inglês, fez-me provar. E Cole Mohr? Gosto da cor dos olhos e da sua magra diversão. E a canção "I'm All Over It", de Cullum? "Olá Inocência! Parece que somos amigos há anos". E os pensamentos em ordem inversa? Os caminhos de Ponta d'Agulha; o cinema silencioso da Coroa; o desaguado choro artesanal aos ombros de Milly e Bárbara; o sagrado Graal de uma prece no lugar das sete ondas; as enseadas por trás desse mar alto às costas territoriais; a virada cheia de fulgor e o cotidiano sem interferências artificiais; a espuma branca sob o céu, sob o bronze da pele de Pauline e El., e a luz que eu compus pra você; as águas nos pés, os picos, os olhos encerrados e tudo mais saudade nessa liberdade de amplidão. E se, por breve instante, pensei que acabou, o melhor de tudo foi ter sonhado. Não quero mesmo pecar por apatia. Sonolência mórbida em cidades da costa é o mesmo que estado de letargia, de indiferença. E a minha crença é a que vem da onda ao me acertar. E não é que foi esse vento que me ensinou a nadar? Nada de janela, pois. Ei, olha só o que eu achei. A casa aberta ao perfume da maresia. É minha ciência, minha guia. Ou, quando vejo a linha do horizonte, é a voz da consciência ditando o coração. É a lei natural dos encontros. Ou, tão somente, um dia a mais de verão.

Marco Antonio Jardim

domingo, 8 de janeiro de 2012

PÍLULA DA BOA VIAGEM - Número 35

Em Serra Grande, tempos atrás

O registro exato de um sonho não me sai da cabeça. Havia subido uma serra numa estrada ladeada por mata silvestre. Incrustadas, várias casas de veraneio. Parecia que eu estava no Rio, num velho bairro, Laranjeiras ou Cosme Velho, ao lado de escritores e compositores. Numa curva, perto de uma casa, havia uma árvore gigantesca. Uma daquelas centenárias, como a jaqueira na trilha de volta da Engenhoca, em meio a blocos de concreto da construção embargada. O proprietário da casa abriu o portão, convidou para o almoço. Comida baiana, servida em cumbucas de barro. Depois ofereceu cocadas de tantos sabores e mostrou um espelho de água doce que descia sobre um gramado em declive. Lembro que tinham crianças por perto. Meninos nativos. Por vezes, minha mãe aparecia numa sacada. Nesta expansão de consciência, acordei. A propriedade do que é material ou palpável, fora da mente, é de um tudo tão diferente. Moro no alto do Guarani, um bairro suburbano, onde ainda é possível ver as pessoas nas portas das casas aos fins de semana e um horizonte sem mar. Na minha rua, a Castro Alves, há o mercadinho da esquina, o verdureiro do quarteirão acima, o cortiço ao lado do boteco com mesa de sinuca, o bar reformado ao estilo copo sujo e a casa abaixo onde se vende geladinho. Lá embaixo, numa esquina, um famoso bar de frutos do mar. Tem o moço que conserta bicicletas, o que laqueia móveis, o açougueiro e o do espetinho perto da casa de parede vermelha descascada. Não conheço muita gente, mas aceno pra alguns até a curva do Poço Escuro. Agora, por volta da noite e meia, ainda ouço gente arrastando sandálias, subindo a ladeira. Faz calor, é verão. Minha mochila está pronta pra viagem e aguardo o táxi. Entre um cochilo e outro, estou na estrada. Nai e André dormem nas poltronas ao lado, dadas as mãos. Entre um tempo e outro, estou fora da ordem, abrindo os olhos, aos planos da visão. Não sei bem se habituei à paisagem, mas, nessa autoestrada, de tudo que vi, chamou atenção a cor negra da pele do rapaz que encostou, em sombra e luz, o braço ao meu. Do outro lado da janela do ônibus, tudo é menino, menina, no olho da rua de Ilhéus. Na virada da costa, no alto da Serra Grande e nua, escuto "Girl From Ipanema" na voz crua de Amy. Abro o Carta Vieja aqui mesmo e tomo no gargalo, em memória ao reflexo das outras cores da cidade, mais bonita que em cartões-postais. Em certo tempo parece fogo, em outro parece paz, brilhando o sol a pino na feira, na praça quase lilás. E mais: parece mar. Estranho como está mais claro, aberto e simples. Até a pousada que elegemos, discreta, escondida depois de um corredor, ao lado de um pequeno bistrô de massas e cheiro de camarão. Tudo modesto nesse lugarzinho que não recordo o nome. Um pátio, com estrelas no piso avermelhado, ladeado por quartos fechados, de portas e janelas de madeira pintadas de azul. Por uma escada, Osório, o proprietário, cândido baixinho de olhos claros, leva-nos ao único quarto desocupado. Deixo as roupas sobre a beliche, os frascos nas tábuas embutidas, estendo os lençóis, espalmo o travesseiro e saio. Caminho pelas ruelas, já de tardinha, e, sim, tudo parece muito inocente, singelo, com a cor da terra corando na Concha e brilhando até os paralelepípedos da Ribeira. Praias mais vazias, o pão francês um pouco mais seco, os estrangeiros menos europeus. Ainda está lá o nítido farol, o sinal sob o sol, mas a vida parece mais real. Respiro fundo, porque sei que o mundo, atrás deste pano de cena natural, esconde segredos mais profundos. Deito e espero novo dia nascer. Mostro a polpa da minha mão ao sol. Azeito o sol nas boas vindas da falta que o mar me dá. Nesse início de nova manhã, choveu. E eu sentindo a mãozinha do pequeno nativo em minha tatuagem. E a voz de minha mãe ecoando: "Filho, boa viagem".

Marco Antonio Jardim

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

PÍLULA CHEIA DE SAUDADE DO MUNDO - Número 34


Tem lugares que lembram vida, histórias, caminhos. Lembram destinos inteiros. Cenas de filme em preto e branco também. Uma brisa que passou pela janela. Amores, amigos, afeições. Tem lugares que são a cara de alguém. Que estão descritos em livros, mesmo os que ainda não foram publicados. Lugares que foram fotografados numa viagem inesquecível. Lugares que se sonha e outros que a gente transforma em quadro com moldura azul. Tem outros que a própria vida vai fazendo. Uma rua, uma casa, uma praça, uma praia. E até uma cidade inteira de memórias. Mas de todos os lugares bons, o melhor é aqui e agora, lembrou Stela, citando Gil. É desse que não quero esquecer. Mundo que penso e que busco por formas novas. Saí da pupa da Pedra do Sal, lugar de bambas, aos pés do Morro da Conceição, na Gamboa, e desci pra cortar o cabelo, jogar pra trás, mostrar o rosto inteiro. Preciso de pele nova, marrom. Pra refletir algum dourado do creme de damasco. Pra interagir, fluir, ouvir o cantar de galo que diz que o tempo passa e o mundo também. Atravessar a estrada do próprio instante. Aí a gente abandona roupas usadas e veste valores. A gente esquece os mesmos lugares e busca um caminho distinto. A gente abre os olhos e só fecha ao bom descanso. É o tempo de travessia. Primeiro numa vila, na Lapinha, depois Belo Horizonte. E aí o destino que liga Minas ao porto, ao mar. Mundo inteiro azul esse. O short jeans, velho, desbotado, bom de usar. Mundo livre esse há. E ser livre é, em meio à angústia da saudade, calar pra ouvir "Summertime" no folhetim. É o centro de Tóquio calado no tempo, talvez 75. É ver trens, aviões e nuvens passando. Dá pra ver a lua cheia a olho nu. Artistas, malucos-beleza, famílias inteiras em busca de encontros transformadores, únicos. Mundo resistente esse. O da força da alma em não ceder à falta de ar. Estou falando de Kiki Joachin. De viver como se não houvesse mesmo o amanhã. De comer o doce predileto, abraçar um cachorro, fazer foto com quem se gosta, batizar estrelas com o próprio nome, acreditar que uma partícula pode explicar o mundo. Mundo de símbolos esse. De eternidade, enchendo a graça da gente de esperança tardia. Mundo de alarde. De topless em St. Bart. De Cris com esmalte fluo. De Dorgi em lítio e entropia hipster. De Mickey e Mallory em "Natural Born Killers". De Dalila atravessando uma faixa de pedestres. De Etiópia, regime híbrido, museu de povos, novela meio esquecida. Mundo inesperado esse. O sumiço de Alex O. e o sorriso de Alex O. num fim de semana em Santo Amaro. Mundo quente esse. Bom de chupar picolé Capelinha no Solar do Unhão e desapegar, como Nalim costuma sugerir. Ela que chegou, abriu portas e janelas, e foi. Minhas irmãs também vão. Meu filho vai. Pra onde vou? Fico tão cheio de saudade que qualquer beijo de cinema me faz chorar contido, meio que escondido pra depois aliviar. Se eu dominasse esse mundo, cada dia seria o primeiro do verão. Cada coração teria uma canção predileta. Toda manhã a alegria nasceria repentina. Esse mundo seria um lindo lugar para se tecer sonhos e sorrisos nos rostos vistos. Em cada céu, um por-do-sol. E garças brancas no amanhecer. Sem sombras de esquecimentos e árvores alheias. Mundo pra se ver gente, regar plantas, amar rosas e preparar-se ao infinito, ao mar. Um dia, num mundo saudoso assim, a gente aprenderia a amar.

Marco Antonio J. Melo

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

PÍLULA DA BUSCA POR BOAS NOTÍCIAS - Número 33

Imagem da Praça Tahrir, no Egito

Busco uma boa notícia. Ainda é mais cômodo esse percurso do que ser o poeta da esquina que recita versos pra uma multidão que só deseja as vestes. Conheço pessoas, por exemplo, que não sabem que o Haiti é aqui, na América, e não na praça Tahrir. Ainda me impressiona saber que os habitantes de Port-au-Prince, capital do país sem nação da Ilha de Domingos, estão no limite da barbárie. Ainda fazem fogueiras alimentadas com corpos. Os "fortes" matam por pouco. Os "fracos" dormem pouco, nas ruas, longe dos restos da cidade e perto uns dos outros, na vã tentativa de evitarem a morte e o roubo daquilo que não mais têm. Parece ser a volta dos tontons macoutes, agora sem um único Papa Doc. O Haiti é um lugar ou um furo? Porque os do Egito se satisfazem em cima do muro. Procuro uma boa notícia. Um registro sísmico da alma. Para sorrir como Dona Tereza. Uma gargalhada farta e genuína, mesmo sob o som da chuva no telhado de zinco. "Dá água na boca", justifica ela sobre o riso alongado. Na pequena TV, ligada na cozinha, enquanto Dona Tereza servia bolo de erva doce, via-se uma reportagem sobre duas ossadas encontradas na Espanha, datadas de 6 mil anos atrás. Ossadas de duas pessoas que estavam abraçadas, num suposto vínculo de amor. Afeição, querer bem? Ou atração, satisfação? Descubro uma boa notícia, uma resposta aguda a uma pergunta astuta. Mas nem sempre o que escrevo ou o que sou desperta sentimentos semelhantes. Para Di, o neologismo cunhado (e mal dito) é chamado de "pilulismo". O que significa - ainda que sob circunstancial mas cruel sarcasmo - algo que não lhe parece claro. Ou clarividente, como diria um bom amigo, outra vez aprisionado. Talvez, para Di, não seja tão óbvio que eu esteja me referindo a Di Cavalcanti, imerso em dúvidas quanto à sua liberdade como homem. São as armadilhas do senso comum. Porque falo mesmo para confundir, enquanto ele continua estando, não sendo. Divulgando notícias, enquanto desejo tão somente as boas. "Você tem uma sensibilidade, uma peculiaridade comportamental, uma forma de escrever caprichosa (caprichos supérfluos explícitos e tal). Às vezes, isso vaza aqui e ali, e, de repente, você, em seu também egocentrismo, nem nota que se entrega", disse, a mim, William, um bardo às avessas, afeiçoado ao mundo particular. Thalles, homem médio, equilibrado, sem excessos e sem carências, foi ainda mais lacônico: "O que você escreve é uma baboseira. Não tenho paciência". Torno públicas as boas notícias, pois. Em maior número possível, porque me parece que o mundo gosta é de destroços, mais visíveis na madrugada. É uma garagem em pedaços ali, bolsas e sapatos jogados no chão de acolá, uma segunda-feira inóspita adiante. Quanto espaço sufocante. Minha semana, portanto, só começa na terça. É quando cedo ao trivial. Volto à área dos fundos da Casa d'Arquitetura, sento no banco de madeira gasta, fumo um cigarro. Por vezes, Lara, Aline e Ana me acompanham em amenas conversas de primavera árabe ou verão. O sol acende o vermelho da parede sem grafites e as pétalas de flor de pitangueira forram o chão. Nestas horas passageiras, sinto saudade do pequeno grande Ícaro. Não mais o verei por longos meses. Sinto o cheiro de boa comida que vem do andar de baixo. Sinto a sombra de um lugar real. Boas notícias são bem-vindas, como brisa na face em dia quente. E qual dos rostos é o meu? O que espreita o mundo, o zeitgeist, ou o que olha pra dentro, pro espírito do tempo interior? Há oito anos, enviei um e-mail ao codinome Vezzio. Exatamente às 14h56 do dia 25 de janeiro. Do rebordo, eis que ressurge esta pessoa com outras informações e lembranças. Pergunto se o limbo está no mapa dos meus sonhos. Como o que se repetia quando criança. Toda noite, eu caminhava por um campo sombrio, sob a lua cheia, então via um sobrado antigo e uma árvore espessa. Escutava o som de um piano, via luzes acesas e acordava. Que venha desse lugar descascado pelo tempo, desse purgatório, boas notícias. Mesmo que sejam, no fim das contas, um lugar comum.

Marco Antonio J. Melo

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

PÍLULA DO QUE FALO E DO QUE CALO - Número 32

Imagem hiper-realista de Alex McLeod

Quero falar de ausências. Falta de grana, de portas abertas, da compreensão de algumas pessoas do meu círculo, falta de alegrias repentinas. Quero exprimir a sensação de impotência, abatimento, de carência e sufocamento. Passa-se meio segundo e quero dizer outros sinais. Do impacto de trinta bombas atômicas. De 200 mil mortos. Dos que ficaram, que agora saqueiam, roubam, estupram e matam. Quero discorrer sobre o estado de vida "solitário, miserável, sórdido, brutal e curto", do qual escreveu Thomas Hobbes há séculos. Da guerra de todos contra todos. Quero falar do embate espiritual com a morte. A velha senhora que palita os dentes, como asseverou Lya Luft. Amarga morte, de semblante falsamente piedoso, que se esgueira pelas frestas do portão da vida e pelo corredor da espera, de cabeça baixa, minando os vestígios do tempo. "A melhor invenção da vida é a morte", sentenciou Jobs. Estamos cercados por este querer. O mundo inteiro está vendo, por cima, por baixo, pelos lados, andando, voando, acenando. Cercados da cessação definitiva. Da imobilidade e extinção. Quero expressar a perda de beleza, de afetos, de cobrir e descobrir, do tempo de paz ou mesmo o de luta. Há muito grito, pouco amor. Quando penso num dia, passaram-se anos. Quero perguntar se ainda há tempo de mudar um pouco o mundo. E quero também afirmar as esperanças. As almas soterradas que são salvas. A motivação genuína em torno das tragédias dos dias. Como uma prece, uma oferenda, um próximo passo. Como um rito de passagem do instante. Do lugar sagrado, do tempo, do bosque e do coração. Do universo em comunhão. E da roupa que foi guardada para este dia. Dos anônimos que desejam mudar, crescer, mesmo que doa. Do respirar coletivo, um ato venerado. Quero discorrer a angústia no entulho da frente de casa. Descer, caminhar, lutar contra o termo. Quero declarar guerra contra a falta de contentamento e o terremoto de alguns graus no assentamento da minha relação com os outros. Quero me conhecer e pensar que passa. Que pode ser um vislumbre iluminado na paisagem triste. Ao som de "Alley Cats" repetidas vezes, quero falar, conversar breve, suave. Amar o que faço, ainda em vida. "Eu queria falar de música e partida", disse Brena, contemplativa. Pois quero manifestar. Flertar com as três gordas meninas. A vestida de bolo, a do velório, a do nada. Quero contar o amanhecer. "Irresistível", descreveu Ana Karla. Quero um dia ser como o dia, inspiração. Apostar no belo do estranho, coser Pina Bausch e Caetano, falar de memória e amor. Exercitar o senso de humor. Para o estranho, dizer: "Obrigado pelo vinho rosé". Quero discursar ao púlpito. Ser político, diplomata e jornalista, historiador e jurista. Ser poeta. Ser. "Vem dormir no meu terraço", convidou Juelton. Vou com robe de seda japonesa, malas Louis Vuitton, tirar a camisa em público, no colo deitar e, sim, deixar falar. Unir os eixos de mim, ao gosto do picolé de amendoim, da camiseta Beach Culture. Filosofar o riso e professar o pedido pra que devolvam meu sol de luz perpendicular. Deixar que um novo alguém pouse os olhos em mim, que me coma e me beba um copo de mar laranja profundo ao navegar o meio do mundo. E se, ao lado desse oceano de ausência, num sopro de solidão, eu ouvir outras vozes falando, quero calar em devoção.

Marco Antonio J. Melo

terça-feira, 22 de novembro de 2011

PÍLULA DA VONTADE DE SER LIVRE - Número 31

Fotografia de Luigi Ghirri

Desde antes de nascer talvez eu saiba que tudo na vida tem um certo fundamento. A própria vida é um edifício com base sólida. Não é das construções que se vê com constância pelas avenidas, pois se faz raro o viver a vida, enquanto mais comum é ver os prédios conformistas das pessoas que apenas existem. É mais fácil, hoje, dizer que as coisas são frutos de explicações naturais. Perdeu a graça falar em milagres, acaso, sorte ou destinos pessoais. Sobretudo se movidos por estrelas. É mais fácil provar uma metade do que ser grande ou inteira. Do que ser todo em cada coisa boa, como escreveu Pessoa. Do que ser livre. Aliás, a liberdade é, dos fundamentos, o maior de todos. Maior que o adágio da vida, até. Na última madrugada escrevi, exausto, no mural: terminei a análise de uma extensa pesquisa. E, logo em seguida, questionei como se olhasse em meus próprios olhos: estou livre? Ninguém leu, ninguém curtiu. Muitas pessoas sequer assistem filmes inteiros, como fez, encantado, Fabrício. Talvez nem saibam sobre o Barravento. Nem ouvem jazz. Não sabem sobre nós, prós, contras e sobre imperfeição. Certa feita, enquanto caminhava, ali pela Lisboa, um sujeito de meia-idade, já entregue às rugas, perguntou-me as horas quando, no fundo, queria mesmo uma compensação. "Saí do trabalho tarde e, na verdade, queria encontrar alguém", disse-me, preso em seus próprios vícios. Eu mesmo tenho os meus. E aquele velho pode ser eu. Tenho vício de mar, quando também poderia provar rio de água doce. Vício de amar por uma semana. De observar o mundo e congelá-lo em letras e fotografias. Tenho o mau costume de olhar todas as provas. Esbarrei, uma vez, em fotogramas de um homem obeso, feio e nu. Faltou a mim idoneidade e, a ele, decoro. Não, não sou livre. Estou sempre sujeito a domínio estrangeiro e restrições. Não ganho mesada, não tomo Chandon, nem teço considerações. Aceito as caronas oferecidas por quem dirige um carro que também é meu. Já vi mais de três mil vídeos pornô, mas não fiz nenhum. Não apalpei ninguém, mas permiti que me tateassem a alma. Constatei, atônito, a figura altiva do tempo em minha própria barba. Para Marcos, isso é viver. Numa frase síntese, ele pareceu desprendido de qualquer calabouço. Enquanto eu questiono minha aptidão para vender ou tirar moedas do próprio bolso. E, do calor que faz agora, esta aflição. Logo eu, que sempre gostei do verão. É o tempo - este, sim, livre - zombando da minha limitação. Vanessa perguntou, então, o que parece ter valor universal para mim. Trabalhar, escrever, publicar. Baixar discos por dia, assistir filmes e ler mais revistas que livros. Fazer yoga, nadar, fumar vez em quando. Cuidar do pequeno, da família, do campo. E do quarto, que é templo, mas nem tão amplo. Sair, respirar, dançar em alguma pista. Viajar, não tanto quanto eu gostaria. Exercitar a ortografia do sorrir. Caminhar ouvindo música, beber cerveja gelada e dormir. Tentar, tentar outra vez e coisas mais que não posso declarar. Vanessa, em mais uma sinopse real, perguntou-me, tirando do meu rosto o sorriso ideal: "Tudo em você é sempre fantástico assim?". Não, não me faço livre. "Siga suas intuições", costuma dizer Nalim, numa inversão de valores. Antes, eu a aconselhava. Hoje é ela quem faz os ditames da razão. Eu nem sequer cumpro minhas penas em liberdade. E veja que nem sou antiamericano, nem nacionalista, nem estatista. Não sou politicamente correto, nem fanático e nem mesmo um homem prático. Sou tolo. Um bobo humanista. O que me faz calar é o som de um mensageiro dos ventos. É atravessar a rua pra falar com alguém. É viajar de moto por uma estrada de terra. É assistir "Um Lugar Para Recomeçar" só porque Mitch Bradley deseja ver o mar. E roubar araçá no quintal de Seu Cajaíba. Crer em disco voador. Escrever para Leandro Sarmatz, dizer que sonho em ser livre e acreditar que terei respostas. Não, não tenho o poder de qualquer proposta fazer. Ou pensar como Lucas, em que a Liberdade é seu lugar favorito. Ele, naturalmente, se referiu ao reduto de japoneses em São Paulo. Eu falo do estado da alma. Da vontade de ser livre e diferente pensar. É isso que mereço ter e que desejo saber pra, afinal, feito um oriental, me libertar.

Marco Antonio J. Melo

terça-feira, 8 de novembro de 2011

PÍLULA DA CAMINHADA - Número 30

Cena do caminho para Woodstock

Estou pensando em privilegiar certas ações para a vida. Não sei se posso chamar de ativismo ou mesmo tendência para sentimentos religiosos. O que me move é a leveza da observação. E a tentativa de mantê-la frente às adversidades que começam a fazer convites para o enfado. Quero ir às ruas por incômodo ou fardo. Fazer como na praça Zuccotti, uma ocupação. Juntar-me aos hippies, punks, aos veteranos de guerra com seus rabos de cavalo já grisalhos, às saias coloridas de Bali, às rasteiras de couro, às gentes dançando ao lado, tocando sax, sanfona ou violão, batendo palmas, panelas e vassouras com os hare krishnas, entoados pelo cheiro forte de incenso, o cheiro da ocasião. Não dispenso também os de paletó e gravata, as senhoras de trench coat e as outras que distribuem sanduíches de queijo, bife, tomate e pão de sal. Dos lugares que vou caminhar e das pessoas que desejo ver, a regra é a da diversidade e nada de mal. O único partido que tomo é o de poder escutar Beirut. Em coro, para que a voz, assim em uníssono, alcance o viaduto, a caixa d'água, o mar de Venice ou Salvador. A luz pode ser a de 70, granulada, algo estranha e antiquada, refletindo nas construções, como num filme em super-8. Nessa marcha pública de resgate à alegria, a gente não precisa de polícia todo dia. O que a gente precisa é não esquecer o rosto um do outro e dormir nu, resistente, na cama de um hotel. A gente precisa romper com a poesia de ontem e reatar o verso de hoje. Não envelhecer, jogar o mundo inteiro na mochila pra não morrer. Sim, o sonho não acabou. Vou caminhar com os pés no asfalto ou na areia, colocar os sinetes nos tornozelos, pedir carona na estrada da esperança, descer as ruas, deixar a luz do sol entrar e me apaixonar eternamente. Quando eu sair, não vou bater a porta da frente. De vez em quando e tal, mando um postal. E quando eu estiver cansado, volto o pensamento à brandura, tiro a mochila das costas no meio do caminho dos dias e a brisa vai refrescando o suor. Vou seguindo, tirando o pó da roupa e remendando a intuição. Contribuição coletiva? Por que não? Gentileza, cortesia? Nada em vão. E, da porta da casa do mundo, verei um filete luminoso de lua e estrela, no azul profundo do céu noturno de verão. Chamo de céu do Oriente. Abaixo dele, o sorriso do Éden, o olhar azul-esverdeado de Mi do Carmo, as mãozinhas de Luana sobre as minhas, o sotaque mineiro de Graci, as vozes de Clara, Denise, Caíque, e as três meninas Marias chupando pinha na saudosa Angola de Ciro, na orla, na João Pessoa. Ou jabuticaba, laranja doce, manga madura da boa. O céu agora é cor abóbora. Ali, por trás dos eucaliptos. Tem cheiro de figo e de chuva no ar. E as pessoas caminham pelas árvores ou para onde for além de lá. É uma gente assim tão minha, que eu, simplesmente, vou. Do meu coração febril sou portador. Vou para uma Wwoof para trabalhar, viver novo estilo de vida, cuidar de jardins. Lá terei lugar para cozinhar, outro para dormir e capela para orar. Lá vou fazer yoga e meditação. Espalhar amigos pelas mesas e eles se apropriarão, se juntarão todos numa longa chaise, sem idade e sem gêneros, e serão universais. Talvez eu queira viver e ter venturas, sentir e ver diferente das estruturas atuais. Mas o que quero mesmo é poder escolher. Criar ou recriar, vestir-me de cores ou continuar nu, ler Quintana ou Chico Buarque de Holanda, experimentar todos os amores e entregar-me a todos os sabores. Eu quero ter esse poder sem pudor. E, caminhando com os outros, eu vou. Sem muito papo, sem muito explicar. Cheirando a gosto de mar, feito sábado, feito príncipe, pássaro a flutuar. Eu vou do jeito que sou e não quero nem conversa com quem não tem amor. Pode até estar às moscas o meu coração bobo, como dizem. Mas, como se lê no cartaz da caminhada, meu coração não tem corrupção.

Marco Antonio J. Melo