domingo, 27 de janeiro de 2013

PÍLULA DA CIDADE-SORRISO - Número 57

Vista de Niterói

Onde? Na cidade-sorriso. Tudo mais se trata disso. De onde se quer estar. Comigo? Quando encontrei Ana Clarinha, de shorts, óculos gatinha, cabelos curtos não tão descoloridos, batom vermelho e sotaque rasgando o x, é que, por meio de todos os sentidos, compreendi. Ali estava o dessemelhante no semelhante. Era um teste, em plena sexta-feira de São Sebastião, o santo popular. Nos misturamos à celebração do dia, nosso excepcional solstício de verão, em reverências à vida num ônibus lotado sobre a ponte. Gaivotas pairavam no ar feito papel de seda, repletas da cor azul refletida no branco das penas. Diálogos ladeados pela entrada da baía, pelo mar. Por vezes nos abstínhamos de falar. Parecia silêncio também em volta. E ficávamos, taciturnos, a observar os tons de luz. Tudo tão azul e quase verde. Tão amarelo e quase cheio de mistério, de escapismo. De qualquer coisa que fugíamos, a busca de uma imagem padronizada continuava a ser: onde estamos? E além deste horizonte, quem somos? A linha aparente entre o céu e a terra. "Sempre fomos o que os homens disseram que nós éramos. Agora somos nós que vamos dizer o que somos", diziam as linhas de um livro de Lygia fechado em minhas mãos. Não que fosse meu grito surdo, mas havia um espanto quase infantil (e mudo) ao ver aquele pico com tantos metros de altura, aquele monólito de milhões de anos, talvez feito mesmo de açúcar sobre o barro. Olhando a pedra fenomenal, a mata verdejante em volta e os corredores arborizados, descobri-me que sou mesmo um ilustre varonil tendenciado a afetos, compaixão e ternura. Sou daqueles que se encantam com um juntamento festivo no porto da enseada, nas balsas, na praça à beira-mar, que parece não estar suspenso a olhos vistos. Sou da orla que se comunica com as ruas estreitas, o tempo, os ciscos e os arabescos dos portões. Da corrente de ar fresco carregando, sobre e por entre os prédios antigos e novos, uma história esquecida que se esgueira por ali, na velha vila Niquíti. Do lado esquerdo, um bistrô, simples, de pouca largura, mas tão bonito como o próprio lugar da vida. Do outro lado, tendas de água de côco. Minha vida em poucos dias era mesmo andar guardando recordações dos velhos casarões entre edificações modernas, da velha aristocracia entre as madames e seus cães com sapatinhos. Mar, areia e pedras portuguesas no caminho. Paralelepípedos, asfalto e verão. É desta saudade que fala minha sensibilidade de estação. E das bonecas enfeitadas no resguardo das janelas mais baixas, de riso estático, vestidas de chita estampada de flor, vendo a passagem do tempo naquelas paragens ali. Quase sempre elas todas morenas, cariocas, que se almejam ardentemente só de olhar. Distante do Cristo, estava eu num refúgio, numa tarde que demorou a cair. Aquele aroma característico, de sal e vento, diante das figuras distintas do meu cotidiano, de permanente anil, mestiços de sandálias de dedo, tostados ao sol. Oscar Niemeyer, quando fez seu Caminho sobre aquela água que se esconde, deve ter tido dia como o meu, céu sem nuvem, com um balão pontilhando a cidade. O mundo invisível dos tupinambás ainda tão presente, apreciado pelo sentido da visão e do respiro quente. "Antiquíssimo, antiquíssimo!", repetia uma senhorinha que passeava por Icaraí, marejando os olhos diante de sua própria percepção daquele porto sinuoso, talvez o verdadeiro rio. Andar arrastado por ali era como uma prova de amor, um mito. O importante era manter a mente quieta, a espinha reta e o coração convicto de toda cor. De todo caqueiro das floriculturas das ruas, como borboletas a cada esquina. Dos cheiros diversos do hortifruti. Do homem lendo o jornal na banca de revistas e outro pedindo uma coleção de jazz em frente à cantina italiana. Do "Good Morning" da voz de Norah que se ouvia de um apartamento. Do menino, um alento, dos fios de cabelo loiro feito sol que arde e ao tempo do último som de Tim Maia à sombra da cidade, das construções coloniais, ao pé da serra dos sinais. Do pai que dizia ao filho: "Vai pela areia". Do equilibrista de corpo perfeito de slakline. Das amendoeiras à margem. Da jangada solitária ao longe das águas frias. Sortes e simpatias joguei às namoradeiras que eu via. E me confessei ao Santo Cristo dos Milagres assim: "Estava amando. Ele me deu por penitência que fosse continuando". E que seguisse minha trilha. Por onde, santo, a recompensa prometida? Onde, afinal, a cor do amor? Na Terra de Arariboia, onde me senti em casa. Onde se fez luz, se fez algo e sentimentos poderosos me impediriam de partir dali, da cidade que sorri.

MAJ

sábado, 5 de janeiro de 2013

RIO DA PÍLULA - Número 56

Tela do pintor holandês Vermeer

Acordei. O toque de alvorada me tirou de um sonho luminoso. Nem por isso estava sobressaltado. O cômodo, gentilmente emprestado a mim por Ana Clarinha, era de um tal silêncio de ouro que esfreguei os olhos pacientemente, antes de encarar a luz da manhã que invadia o quarto pelas cortinas em tom de bege. Das fisgas de luz na janela do nono andar do Casablanca, o céu manipulado do Rio. Azul, com um clarão de espanto tão intenso que parecia puro, não real. Deitado, no tempo destes poucos dias demorados, posso concordar que, sim, a solidão é azul, tal qual a tela de minha mãe, em cena de rua, com arvoredo basto como as de Niterói, mas com o solo cheio de neve. Ou azul ultramarino, como o da mulher que lê uma carta no célebre quadro de Vermeer. No quarto, até o fogo silenciaria. Levantei para me acostumar ao dia. Dessa vez, como de costume em todo o ano, o som irritante do despertador não precisou ser ativado. Despertei os sentimentos. Coloquei "Warrant", do Foster The People, pra tocar baixinho. Na sacada, acima do movimento da Gavião Peixoto, o reflexo do sol em minhas mãos. Eu parecia, não pálido, mas caucásico, límpido e jovem no Rio. Meu rosto, com os olhos ainda semicerrados, parecia mais belo, como que visto sob a névoa ensolarada do avião. Um rosto difícil de entender, mas acordado do habitual letargo dos longos meses. Em meio tempo, com um filme fotográfico do Pão de Açúcar na mão, recordei cenas da viagem de sonhos até ali. A viagem desse velho que se conta em um ano. Em Confins, franciscanos contrastando com rastafáris. Os primeiros dormindo nos cantos do saguão, os outros dormindo de olhos abertos. Ambos convergindo em sono, sotaque mineiro e leitores eletrônicos. Vi, ao vê-los, mariposas de variadas formas e cores. Levitei sobre a cidade, recobrei os sentidos e, outra vez, acordei. Esfreguei os olhos novamente, esperando outro vôo, vesti um agasalho verde-musgo e olhei em volta. "A vida muda para quem muda", pensei. Muito difícil, como os velhos hábitos impõem, não tender a recordar Jhon, à revelia da frase de banheiro: "patéticos mineiros". Decidi, em Viracopos, organizar minha alcova, meu pequeno mundo, minha mais completa zona de conforto e proteção. Lá as pessoas fumam bastante. Comumente sozinhas, sem questionar a abordagem de que cigarros são, de fato, companheiros, ainda que nem tão comezinhos quanto seu curto tempo. Lá vendem livros de esperança no hall de entrada. Foram horas de espera entre um cigarro e outro, lendo e vendo. Horas de profundo alívio, na expectativa de que os dias não passassem, ou que, pelo menos, andassem desejando parar. Só assim pude exercitar o olhar sobre encontros e desencontros das conexões no gigantesco, assombroso e algo que mal administrado aeródromo da vida que a gente tenta inventar. Foi num aeroporto que eu vi, estupefato, pela primeira vez, aquilo que eu imaginava estar distante da minha bucólica existência: uma muçulmana, vestindo um chador, acompanhada do esposo e filhinho de traços árabes bem definidos, estes vestidos ao estilo ocidental. Meu modo de observar o mundo é tão assim quanto o próprio horizonte que os olhos humanos podem alcançar, díspar e incomum. Terminada a chama do cigarro, joguei a bituca no pote de barro onde Tia Sônia costuma depositar seus próprios restos, amassei-a, machuquei-a, como, aliás, nós mesmos deveríamos fazer à morte, e voltei ao apartamento. Dobrei o cobertor azul cor da noite e guardei, junto ao travesseiro, no alto do guarda-fatos. Ajeitei a fronha do colchão, também azul. Coloquei o pinguim de pano num canto, presente de um passado que ainda não desejo remoto. Separei as peças de roupa já sujas e as empilhei no chão de tacos. Camisas estampadas, poucas pretas, outras brancas e listradas. Roupas de baixo e meias. O agasalho que só usei em Minas - porque, afinal, eu estava agora no Rio, sob o peso dos quarenta graus -, pendurei num cabide, sobre camisas de botão que não eram minhas. Bermudas e calças suspensas na estoqueira. Óculos escuros, colares, pulseiras, entre outros acessórios, além de livros, revistas, mp3 player, diário e frascos perfumados, todos em seus espaços, cedidos por Clarinha, acomodados e conciliados. Trouxe algumas fotografias e pequenas lembranças de papel em caixas coloridas, sintetizando o ano, como se eu não conseguisse esquecê-lo, tirando o sono das reminiscências. Sapatos e sandálias sob o canapé estofado de couro branco, amarelo, vermelho e azul. Fiquei de pé alguns instantes, olhando o armário de madeira de demolição, que Ana guarda pequenas esculturas de peitoril de janela. Na pequena escrivaninha adesivada, coloquei, silenciosamente, um incensório indígena ao lado do porta-canetas, do castiçal, do frade bebendo vinho, feito de gesso pintado, de um gnomo sentado num trono de madeira, de um alienígena de mármore folheando o livro da vida, um porta-retratos chinês com a imagem do irmão e sobrinho de Rachel, e revistas, marcando as páginas da leitura de mundo que ainda não fiz. Curioso...ao misturar as imagens daqueles objetos com meus próprios vestígios, parecia que eu estava em casa. Pus toda esta imaginação de acordo ao meu pensamento, harmonizei-me com a sensação de pertencimento, acendi um incenso de benjoim, ouvi o silêncio e desci para procurar um vinho. "It's a black fly in your Chardonnay", dizia a voz da canção de Alanis. Pus-me num assento de varanda da sanduicheria em frente ao prédio, numa daquelas briseadas ruas de Niterói, cruzei as pernas e fechei os olhos, completamente inebriado. Tudo em volta parecia dádiva de um universo inteirado e nunca antes visto ou sentido por mim. Todo o cosmos, toda terra habitável, todo gênero humano, e mesmo o que excede as forças da natureza, estava ali. Nesta hora quente deste dia dos fins do ano, eu estava ali sim, no Rio. Pois que ri, todo este tempo, dos meus confeitos farmacêuticos, das cartas, da duração das coisas descritas, da finitude delas e até de mim. E lá se foi um ano assim, rindo.

MAJ

terça-feira, 20 de novembro de 2012

PÍLULA DO BALCÃO FELINO - Número 55


Reza a lenda que os gatos foram criados quando a Arca de Noé ficou infestada de ratos. Noé ordenou que os leões espirrassem. Do espirro dos leões se formou o gato. "Anjo da noite", alguém disse que sou. Observador de balcão, impassível, algo livre, minucioso no olhar apertado, nas pesadas olheiras e fixo numa direção. Explicação alguma isso requer. Ao dia, sou felis silvestris catus. Doméstico, mas não domesticado. À noite, quando desejo, sigo o dono. E abro um sorriso bobo, parecido com sussurro. Gatos também são assim, sabem a hora de rir ou chorar, ao fim do ronronar do amor imaginado. Quando não, vou ao lado oeste em madrugada de sábado, ao lado leste da mãe felídea feiticeira, blindada pelo balcão, protegida sob pelos ondulados. Vandet. Ex-mulher de pescador de ilusões, nunca quis manter gatos em casa. Mesmo pobres, mesmo livres. Nunca houve, para ela, desastres expostos ao mar. Para mim, ao final da noite, sempre houve o balcão do bar. Para ela, expressão facial impassível, coração inatingível. Entre gentes e cheiros, estou sempre ali, no Xamps-Élysées, ratos a caçar. Bufo, esbuno. Ou faço meu rumor contínuo quando contente fumo, descansando a cortina de fumaça sob olhar de um gato branco. Dio. Olhar de profundo verde castanho. Mio. Chamam-no de príncipe, felino do disco voador, daqueles que apanha o sol, a lua e o olhar binocular de Bah para si. Não me distingue, não sabe se sou outro mamífero, não olha por minha janela, não passeia nos mesmos telhados, não provou de minha ração, nem pisou meu chão. As lágrimas em meu pelo listrado não viu chorar. No entanto, noto-o tanto quanto o balcão do bar. Troco, com ele, novelos de lã, atos do madrugar. Por que não habita em minha fisiologia? Meu consolo é a persistência do fluxo das minhas sete vidas. Nelas, nunca há resposta fácil. Um dia, Dio, felino himalaio, não me reconhecerá. Porque gatos também sonham, esguicham e mudam de senhor. Gatos enxergam além do alcance, sentados num banco, com o olhar determinado, um propósito sólido. Nestas horas, à revelia do que observam, pardos, rajados de cinza ou persas, Mila, Vilson ou Kátia, mas sempre gatos. O ponto que fixo é o da alma, que depois descrevo num trechinho poético de guardanapo e nos devaneios do balcão. É ali que exponho meus agrados, meus sorrisos, meus sonhos e minha solidão. Aliás, sonhei com Jhon. O mesmo abraço, murmúrios desconexos e espaço de proteção. Bom presságio, então. No folclore americano, gato que sonha com gato é sinal de bom destino. Eu, felino, pouco caseiro, no mundo real e treteiro, conheci gatos urbanos. Alimentaram-me, acostumaram-me. Idalécio, e o riso do gato de Alice. Inácio, mais corpo que gorjeio. Israel, o gato da geladeira. Wendel, gato preto. Falcão, selvagem. Danilo, bombay fantasioso. Fillipe, de coiro. Alexandre, do bolso pelo avesso. Mazzo e Nara, iscas de peixe bem cozido, donos de Amy. E as gatas extraordinárias, Marlua e Jéssica. À luz da lua, são tantos gatos pela rua. Muitos de alma tão vazia. Será que isso me incluiria? Eu, faceiro. Predador natural de roedores, pássaros e lacertíleos. Por vezes desleal e simulado. Disseram-me, certa noite, no canto do balcão: "Você é um animal de estimação egoísta, solitário, medroso e bem disfarçado". Qual nada, sou é sagrado. No antigo Egito, mantinham-me em templos. E previam o futuro dos meus movimentos. Eis meu furo em sua veia. Na ceia noturna da procissão, por entre sacerdotes salesianos, freiras de túnica cinza, fiéis e cânticos, um alvo dinictis me examinou com atenção. Parecia um cândido marinheiro a predizer sua viagem na observação. Ébrio, tive a impressão de ver Aline, vestida de egípcia Bastet ou Freya, gata nórdica, fértil e sedutora, numa carruagem puxada por dois bengais. Eu, angorá sob a neblina, despeço-me, sumindo no sereno. Quando fecha o bar, vou indo, venerado, sagrado. Pela manhã, espreguiço, passo a língua sobre meu corpo, bebo meu próprio leite. Tal qual assegura a mitologia, saio à rua feito animal de companhia. Vejo um pequeno Miacis sobre os ombros do pai. Fez-me sentir falta do meu. Fui à sala de Chaeles, beijei o gato da família, pedi um lugar à mesa e o paguei com sal. Se olham ao lado, lá estou eu de volta ao balcão, feito garboso siamês, contra o âmbar do portão. Eu e meu estranho coração. Há tempos não sei o que é um bom prato. No fundo, no fundo, eu sou um negro gato.

Marco Antonio Jardim

terça-feira, 16 de outubro de 2012

PÍLULA CINZA - Número 54

SP

Oscilações positivas no universo. Pela primeira vez, estou em meio e acima das nuvens. Observo e anoto, da janela do avião, para loucos que são felizes. Que escutem os desordenados, amotinados, criadores de caso. Os de corpo leve, harmônico e sensível. Corpos redondos em espaços quadrados. Mas, para mim, só leveza nesse espaço aéreo, e torpor na aterrissagem dos pensamentos. Nuvens, para mim. Agora mesmo, escrevo, etéreo, sobre elas. Montanhas de neve flutuantes que nunca antes vi. Mar de espumas em reflexo ao céu. Matizes de branco num convite ao mergulho das ideias todas. Um mar tão sem tempo ordenado que parece estacionado. Tão imenso e alvo que meus olhos fecham e marejam sob azul. Aqui estou eu no céu. Neste tempo, perdoem-me os céticos, a ordem é Deus. Não preciso findar para ver Deus. Confesso que pareço bobo, como todas as crianças que ainda sabem ser. Ainda que definam tempo determinado, melhor é o som e o silêncio que passam por mim. Deixo, no ar rarefeito, minha caligrafia em rimas simples e versos soltos. Como um haikai de beleza contida que, do céu, olha todo o mundo, mas, no fundo, está só. Soltos estão meus braços, pernas, tronco e cabeça. Respiro. Suspiro aliviado e afundo meu corpo ao teto do chão. Fecho os olhos para ver a imensidão das coisas límpidas de um jeito diferente. E penso distinto, porque, agora, sou o passageiro da galáxia. E, como tal, não sou tão fã de regras. Sou fã do amor líquido, mensageiro. Em meio ao festim das nuvens, amo por inteiro. Nessa atmosfera menos espessa, as pessoas e memórias me escapam às mãos. As devolvo ao tempo, troco-as por mercadorias de afeto, mas só porque estou suspenso. Quando pouso, entretanto, ainda amo. Escuto "got to be there, got to be there in the morning" no aeroporto e meu sonho volta a bater na antiga porta de Delfos, sob placa de seiva bruta. Furta-me o ar, agora denso, e a cor é cinza. "Hello, world", ainda ouço. Sim, estou em São Paulo. Vista do alto é quase chumbo. "Mergulhe no oceano de si mesmo em São Paulo", li no devaneio bêbado de Guarulhos à Marginal Pinheiros. O verde das árvores tem tons prateados. Apenas algumas flores de figueiras, chichás e copaíbas quebram a monotonia do concreto. Abro os olhos, feito asas de borboleta, e vejo a fauna paulista a louvar, destoar e imitar o meu próprio olhar. Meu gesto de mãos e boca é aspirina, o indefectível cigarro e o exercício do senso de observação. Black powers com headphones, peruas estilizadas, workaholics de terno slim, piriguetes urbanas, street artists, ciclistas, taxistas judeus, um batalhão de orientais, usuários de crack, gays de enormes óculos escuros, hare krishnas, línguas estrangeiras, hordas de expressões distantes, corriqueiras, paulistas. Todos entre branco e preto, sob chuva interminável. Antes da tempestade, uma lacuna de tempo. Mente quieta, corpo aquecido, sou, fora de mim, pertencente a esta tribo tártara, povo nômade. Estou longe de Atitlán, o local onde o arco-íris ganha tardes gris. Alô Paulista, eis meu amores. Porque são eles que mudam as cores vistas de mim no miolo da cidade que não tem fim. Gestos magnéticos, simbólicos, até criam, inspiram e curam. Minhas mãos sobrepostas sobre eles. Porque são eles que impelem minha força à frente até o coração do Ibirapuera. Uma cidade dentro de um parque e meu coração recipiente, pleno e profundo, em estado de yoga, em oferenda de energia, feito arranha-céu de concreto e vidro na capitania. Tão alto que minha aura pode até andar. Numa das mãos, um escudo antitristeza. Noutra, uma tela em branco, uma obra de arte do Masp, uma energia criativa, um mantra da paz. Eu, inteiramente templo de silêncio, ouvindo uma canção que nunca antes foi composta. Om Shanti Om na Avenida São João. Meus dedos logo tocando os raros lapsos de céu azul em resposta. Ali entre as antigas igrejas, estações, pontes, túneis escuros, grafites, pop art, velhos sobrados e a Pinacoteca do Estado. Há cheiro de poesia e comida tailandesa no ar do labirinto místico. Apesar do pesar, meu olhar vigia São Paulo. Do nono andar do Quality ou do subterrâneo do Metrô. Da esquina da Augusta à Consolação. Do Eldorado da Faria Lima ao posto da solidão. Contemplando a beleza tardia de uma das maiores cidades do mundo, sei que o sol, um dia, há de morrer. Existe amor em SP? Na lápide da efeméride da vida, jaz o sol. Em volta da opressiva paisagem sem fim é até possível ver luzes e calor, mas estou em São Paulo. Vejo cinquenta tons de cinza, mas não sou. E agora jaz o sol e o som. Jaz a soberba malha fortaleza, a quem rodeia pela parte dos Jardins e do Ocidente. Fico breves instantes em silêncio contente. O olhar marejado no físico fatigado pela poluição. Sim, São Paulo é um buquê que anseia respiração. Profunda e silenciosa. A cidade em feriado nacional. Este é meu pranayama, minha flor de lótus. Celebrando, no rio morto terroso, ladeado de heliportos, Nossa Senhora da Conceição. É a imposição das cinzas no tom da dor na margem das minhas costas. Tom maior azul celeste com pontos luminosos, subindo o dorso feito estranha saudade urbana. E do meu caminhar flutuante sobre a esteira do metrô, vendo a luz na fresta das folhas passar, o ar passa. No vasto formigueiro, cada movimento meu cria asas secas de cigarras na raiz. Cria razão e emoção. Amplia o ângulo de minha visão. Se não sou, de estilo ou referência, minha ciência do espírito está sendo sim. Non ducor, duco. Eis meu espírito compreendendo, aceitando, transformando. Oh, São Paulo, pureza do zen, sou seu humilde criado. Eu, sikh, curvo-me perante ti. E, por ser amor, toma e finda. São Paulo em mim é cinza.

Marco Antonio Jardim

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

ALULÍP OD OSSEVA - Número 53

Tela de Mari Lopes

"Quando ele veio ao encontro do povo, um homem se lhe aproximou e, lançando-se de joelhos a seus pés, disse: Senhor, tem piedade do meu filho que é lunático e sofre muito, pois cai muitas vezes no fogo e muitas vezes na água". Trecho das Escrituras, do colo de Sued, que cobre minha mão como luva, como adorno para cada dedo e razão daquele que Oicélc lançou, em riste, a mim: "Você tem algo de autodestrutivo". Qual o sentido do insulto? Eu que passeio pelo mar da Galileia, sobre o rio Jordão, no deserto da Judeia ou acendo âmbar no vasto do meu coração, como permitirei, em poucas palavras escritas, que ele destrua uma inteira argumentação? O que tenho são olheiras, um corte correto de cabelo, nenhuma barba e gratidão, que nada pode contra ambição desmesurada. Daquelas de animal carnívoro, feroz, superior a qualquer homem envelhecido. Eu, por minha vez caetaneando, sou o que sou e não bronzeio pílulas. Quando eu, de fato, envelhecer, vou ler o jornal no banco da praça, vou usar terno laranja e chapéu de abas longas, que hoje não me cai bem. Quando eu envelhecer, tudo poderei fazer. Além de mim mesmo, e do resgate do meu flow, do meu fluxo, serei fêmea, sacerdotisa, monja, mãe ou menina, "minha e não de quem quiser", como afirmou cantando Aissác. Na verdade, nem importa tanto a madrugada que sou. Ainda hei de escrever cartas de amor, mesmo que tenha de inventar um. E que eu dê nome a ele. Senegóid. Que gosta de chuva, de milhares de estrelas caindo do chão do céu. E o que preciso agora? Dormir, para sonhar com alguma fé espelhada na faca afiada. Confiar para desconstruir, deslocar montanhas. E regular o tempo desta cidade de frio cortante e desumano calor. Eis que Ozne nasceu neste mundo de belezas e enfrentamentos, enquanto Ilekim passeava de bicicleta no centro da cidade, enquanto meu corpo não se adaptava nem mais a lenços de papel. Quiçá a resistências e má vontade, rotinas, egoísmo e cegueiras de toda ordem. O que há, de repente, é nascer do sol batendo da janela pro meu rosto. Não é prenúncio de verão, mas é o sol. É um sonho de origem. Nele, há sempre um céu oriental, de azul quase noturno, limpo. Eu levito, as vezes com auxílio de asas, as vezes segurando balões a gás. Estou sempre sem sandálias. Encontro seres estranhos, de variados matizes. Deslizo por tubos diáfanos. Vejo pétalas ou estrelas caindo devagar. Acordo completo, sem princípio e sem fim. Muito mais sinto o gosto de viver. De respirar pela alma, como se houvesse só isso para notar. Isso é que é matéria esculpida em fé robusta, nas pequenas ou grandes coisas, na saúde ou doença, alegria ou tristeza, pobreza ou riqueza, até a morte e depois. Prometo, então, respeitar-me, ser fiel a mim e a Sued, que soprou no mundo que tudo se move, "inclusive o centro". Ainda que iguais a mim, como maldisse Amles, existam cinquenta mil. Só sei que eu mesmo não maldirei do meu destino. Engana-se quem pensa que tive dias assentados, silenciosos ou convencionais. Fizeram questão de me presentear com o tempo. A camiseta, antes panfletária, agora tem listras e botão. Em lugar dos cigarros franceses, chocolates meio amargos. Antes eram os braceletes fluor, agora é kit de barbear. Não ganho mais vodka e, sim, prosecco argentino. Se antes faziam festas-surpresa, agora me convidam para um chá. O avesso do avesso ao que deve ser. Continua a prevalecer a fé aos sete ventos e à saudade de Aleafar, incrédula às inversões do mundo, dos nomes, das pessoas de alma bem pequena, convicção vacilante, incerteza e hesitação. Saudade de Ledraj e seu olhar. Assim também é Ikrup. Asséptico, dorme em berço de falso ouro, numa cela artificial, rodeado de fotografias distorcidas e que, entre um cigarro e outro, cospe palavras impensadas. De outro extremo, Id, filho de escravos, nascido depois da lei de emancipação, ingênuo e perplexo, perdeu o rumo das próprias histórias e se encerrou como o escritor de um livro só. E eu, enfim, Okram, um marco de fé raciocinada e calma, sem tantas palmas a esperar. Minha única curiosidade é ver onde o sol se esconde. Caminho até o espelho mais próximo e inverto as alcunhas no reflexo. Lavo o rosto, passo as mãos, tiro as roupas usadas, faço um batismo de água e perco o fim de tarde sozinho, no entreposto da solidão. Eis o avesso do avesso ao que deve ser, senão. Sem nome ou sobrenome e que, pelo menos, mente a ordem do que sente sem sentir. Assim, do jeito exato e contrário que o seu nome escrevi.

Marco Antonio Jardim

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A PÍLULA DE MRS. DALLOWAY - Número 52

Ilustração de Julien Pacaud

Tenho já a primeira frase, a primeira expressão: "Mrs. Dalloway disse, ela mesma, que iria comprar as flores". Talvez esteja estalando língua distinta da minha, mas parece refletir certa proximidade com o mundo. Escutar outras vozes, em outros idiomas, outros gemidos mais fundos. Ter também outros casos. Em todo caso, aconteça o que acontecer, o quanto antes ela quer ser. Neste conjunto de espaços, corpos e seres habitados, que não é mais o mesmo, que há pouco tempo mudou, quer existir. Ter as imperfeições apontadas por si mesma, não por olhos alheios. Não quer união legítima, constituída e simplificada por um elo de metal dourado. Quer amor em excesso. Não quer nenhum destino deslumbrante para celebrações privadas. Este é o sonho de Marcela, não dela. Nada, a ela, é pouco espaço. Ainda que passe o passo de um para outro, ela quer a universalidade, a totalidade de coisas e pessoas. "Então, num fim de tarde qualquer, poderíamos tomar café", convidou Lara, uma amiga. Ela não quer. Sua vontade é fechar alçapão, cortar luz e ar e anular a irritante voz da velha vizinha e seu desventurado gato. Que se afastem os que não partilham dessa filosofia. Vazia é a que não se sabe o rosto, nem cor de pele, mas se agasta, deplorável, com o berro de suas palavras. Ela quer é que se complete, que se transborde sua voz escrita. No fundo quer é momento, espaço-tempo, pessoas. Prefere a sineta do moço dos picolés. "Coco, goiaba e creme! Tangerina, tapioca e doce de leite!", grita sempre, entre pilhérias e momices. A doce festeira Diane chegou a descrevê-la, certa vez, turvando a visão: "Você encanta". Ledo engano. A verdade é que ela se dobra sobre si mesma, servindo tão-somente de imitação da vida. Como mariposas e libélulas que por agora vêm surgidas. Num instante é nuvem. Noutro é praga e partida. Ela endossa que vai encher os bolsos de pedra, mergulhar o leito de um rio e morrer aos 40. Não cabe mais em si. Deixa-se romper. Cai em si só chuva fina no feitio de confissão. Ela? Solidão. Poesia que mapeia chão e mundo, alívio, triunfo, revolução. Alimenta a alma com alpiste, num jeito explosivo e esquivo de quem, no fundo, nada quer. Ela é a vida inteira em um único dia. Vai a festas para abafar o silêncio, escreve a totalidade das coisas, vai de mulheres e homens, pega pelas mãos crianças e velhos, doendo solidão insistente. "Quem dera pudesse a dor que entristece fazer compreender os fracos de alma, sem paz e sem calma", cantou-lhe Ângela. Sua irmã mais velha oferece ameixas frescas e sabonete de cacau no disfarce de refrescar sua alma. Sua mãe prepara o almoço de domingo. Seu sobrinho nota que ela escuta canções de outrora, mostra-lhe um pássaro morto e pergunta: "O que acontece depois que se morre?". "Retornamos ao lugar de onde viemos", responde ela, alheia. Alguns homens insistem no ato ou efeito de parecerem próximos. Bruno, de longe, vem vê-la. Flávio persevera uma visita íntima. Seu primo Tarlyson a tem por incomum. Um homenzinho giboso a convida para o teatro. Um outro, quase em torcicolo, a devora com os olhos. Um terceiro, anônimo, num gestual lascivo, a aguarda numa esquina escura. Nem mesmo os mais moços e nobres lhe parecem apetecíveis em formosura, como aquele enfermeiro sisudo de todas as noites na estação. "Sua vida é tão banal", aparenta ele, julgando-a na expressão. Até de quem ela almeja apregoar o nome nos classificados ou nos locais públicos, não se faz justo, antes comprometedor. Ela só lê, dos pequenos aos maiores gestos, interpretando os ingênuos pensamentos dos homens. E, observe, seu encantamento de mundo só se faz maior assim. Todos os seus sentidos ali na coluna vertebral meio arqueada, anunciados e falidos, onde se lê, sob ironia mordaz, "Visionary. A tributy to creativity". Ela é como o sol que cobra caminhada rápida depois da escuridão. O mar brando, de maré baixa, que exige saudade do sertão. É, outra vez, chuva fina que dança, reza, moe e lamenta antes de cair. É estrela que só se alcança quando sonham com ela. É pôr-do-sol só para quem sabe ver. É vento para quem vira sua esquina. Para Núbia é cheiro de mato, para ela é tão pequenina que - se cresce - se esquece. É ar fresco arrepiado em corpo molhado. Essência, porque pouco se pensa. Desses sentidos, Núbia, nada ela é porque não é de graça. É simples, comum, mas escrava da culpa moral e do tempo porque, ainda por cima, tem de enfrentar as horas prestando contas pelo ponteiro a "um mundo atento a não perdoar". Ela se despede, então, num exaustivo fluxo de consciência, das pessoas que mais amara na vida. Escreve, antes, duas cartas. Na primeira, conta que sente não conseguir passar por novos tempos difíceis. E que não quer revivê-los. Na outra, nem sequer consegue escrever ou ler. Livre do peso das obrigações e num desfrute pessoal de além carne, já tenho, dedicada a ela, a última frase, a última expressão: Mrs. Dalloway sou eu.


Marco Antonio J. Melo

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

PÍLULA PELO RECOMEÇO - Número 51

Tela impressionista de Van Gogh
No toque da alvorada, depois da perda das horas, acordei de sonho luminoso. Um reencontro com meu irmão Breno, na Chapada. Avivei o texto de sua voz em pensamento, enquanto a luz invadia o quarto. Olhei-me no espelho e vi constelação em minhas costas. Muito próxima do Polo Sul Celeste. Despertei e, sob neblina, eu não estava só. Mulheres campesinas me cercavam, segurando balaios de palha, derramando pétalas em mim. Senti o cheiro, afundando no chão. Cheiro também de pão. Eu vestia o traje menos amarrotado. Vestia minha vida simples. Ainda sonolento, caminhei sob o eco da voz de uma ninfa grega consumida por amor a Narciso. De tudo, ele lhe deixou a voz. "Confesso que eu gostaria que você não fosse o que é", disse pelo fim. Passaram por mim os últimos boêmios e os primeiros operários. Tirei da bolsa o maço de cigarros que não trago mais, joguei ao chão, juntamente com a resposta de não lembro quem, de cor marrom. "Meus olhos marejaram, preciso digerir o que li", divagou o homem sem rosto pelo fim. Tocava James Newton Howard, temas de filmes. Passava o tempo por meu rosto, meus jardins, minha cidade de interior. Refletia meu espírito margeado pela sombra da cerca do Poço Escuro. O clima estava impreciso, entre o frio e o ameno. Sons de folhas secas de milho ao vento. Segui suave, vivo após alguma morte, sem temer que me enxergassem. Naquela rua, no alto de um dos novos prédios, tem uma imensa estátua de anjo. Normalmente brilha ao sol. Sentei num banco da Virgílio Ferraz, por onde, submerso, passa o Rio Verruga, paisagem sem definição. Algum tempo eu tinha, então abri o diário para rever as impressões de Odilon. "Tenho saudade da Cíntia. Às vezes a vejo e a acho linda. Parece pessoa que não vou mais ver", lembrou pelo fim. Ri sozinho, onde meus pés fincaram alma. É que recordei a visita das minhas tias. Sempre carrego a sensação de que será a última vez. É que evoquei o abraço de Kenio. Onde me perco e me acho. Onde para o tempo no mar do coração. Onde me volto às origens, fora de quartos e salas, refugiado em tempo real. É a construção social da realidade, diriam Peter e Thommas pelo fim. Ou falariam de amor. E por discorrer em candura, Adla me procurou. Pomos à vista nosso perdão. A neblina ainda deixava o horizonte um tanto indefinido. Levantei do banco e segui a manhã do meu novo caminho. Passei em frente à Câmara. Gosto de observar aquele velho casarão restaurado, amarelo, a fachada secular, os passos de assombração. Desci pela esquina do hotel desativado, no beco do Candelabro. "Qual de vocês não acha belo quando ele desce, quando deixa tudo translúcido?", ouvi alguém sussurrar pelo fim da lojinha de artesanato. Deixei-me guiar pela avenida, entre estabelecimentos de roupa e de frutos do mar, por cima de folhas caídas, até achar outra praça. Numa das mãos, eu carregava um livro de Isabel Allende, e noutra, uma bebida gelada. Percorrer o caminho assim é como um convescote de manhã cedo. É a tradução de meu universo em algumas boas palavras, a essência do meu entendimento de mundo. Viver manhã assim tem certo sabor. De beijo leve, como o que Duh desejou dar. "I Think, I Love", eu escutava, pelo fim. Pensei que, talvez, Guilherme pudesse estar na sacada da janela. E estava. Semblante grave, analista. Horas mais tarde o vi tão absorto, dormindo no sofá de Ana. Quando acordou eu queria ter dito "Olá, estranho". Pelo fim da voz calada, eu não disse. O céu, já a esta hora, não se achava nublado. Há tempos que não ficava assim. Subi as escadas. Ana que me recebeu. Numa parede da sala, uma réplica impressionista. A cor da luz ali anunciava o passar do meio dia. Raquel me ofereceu uma taça de Cabernet Sauvignon rosado. Na copa, falava-se do Rio. Sérgio lembrou o mármore de Carrara, as construções históricas, o bonde, o burburinho do Santa Teresa, o Montmartre carioca. Renata, de Minas, ensaiou um sotaque peculiar. "Vou te escrever uma lista para você sentir", disse Raquel, sorrindo pelo fim do corredor, apertando os olhos claros. Relembrei o quanto é delicado viver, de uma forma ou de outra, em cada esquina, em cada rua estreita. Luc anunciou o pôr-do-sol. Fomos todos à sacada. Tinha um cheiro de magnólia no ar. Cheiro de nova estação. Já era quase noite, quase frio. Tempos depois, num quarto de hotel, ouvíamos um fonograma e Di confiava singelas histórias. Leandro, o de olhos cor de mel, abraçou-me, deu um beijo em meu rosto e se despediu. "Cuide-se", falou, pelo fim, como um clarão. Voltei à minha casa, ao meu quarto, ao meu tempo de então. No toque do ocaso, entreguei-me de novo ao sono. "Devagar a gente se acostuma a tudo", quase ouvi de Camus, pelo fim da impressão do dia. Afinal, de onde mais vem inspiração?
Marco Antonio Jardim