terça-feira, 16 de outubro de 2012

PÍLULA CINZA - Número 54

SP

Oscilações positivas no universo. Pela primeira vez, estou em meio e acima das nuvens. Observo e anoto, da janela do avião, para loucos que são felizes. Que escutem os desordenados, amotinados, criadores de caso. Os de corpo leve, harmônico e sensível. Corpos redondos em espaços quadrados. Mas, para mim, só leveza nesse espaço aéreo, e torpor na aterrissagem dos pensamentos. Nuvens, para mim. Agora mesmo, escrevo, etéreo, sobre elas. Montanhas de neve flutuantes que nunca antes vi. Mar de espumas em reflexo ao céu. Matizes de branco num convite ao mergulho das ideias todas. Um mar tão sem tempo ordenado que parece estacionado. Tão imenso e alvo que meus olhos fecham e marejam sob azul. Aqui estou eu no céu. Neste tempo, perdoem-me os céticos, a ordem é Deus. Não preciso findar para ver Deus. Confesso que pareço bobo, como todas as crianças que ainda sabem ser. Ainda que definam tempo determinado, melhor é o som e o silêncio que passam por mim. Deixo, no ar rarefeito, minha caligrafia em rimas simples e versos soltos. Como um haikai de beleza contida que, do céu, olha todo o mundo, mas, no fundo, está só. Soltos estão meus braços, pernas, tronco e cabeça. Respiro. Suspiro aliviado e afundo meu corpo ao teto do chão. Fecho os olhos para ver a imensidão das coisas límpidas de um jeito diferente. E penso distinto, porque, agora, sou o passageiro da galáxia. E, como tal, não sou tão fã de regras. Sou fã do amor líquido, mensageiro. Em meio ao festim das nuvens, amo por inteiro. Nessa atmosfera menos espessa, as pessoas e memórias me escapam às mãos. As devolvo ao tempo, troco-as por mercadorias de afeto, mas só porque estou suspenso. Quando pouso, entretanto, ainda amo. Escuto "got to be there, got to be there in the morning" no aeroporto e meu sonho volta a bater na antiga porta de Delfos, sob placa de seiva bruta. Furta-me o ar, agora denso, e a cor é cinza. "Hello, world", ainda ouço. Sim, estou em São Paulo. Vista do alto é quase chumbo. "Mergulhe no oceano de si mesmo em São Paulo", li no devaneio bêbado de Guarulhos à Marginal Pinheiros. O verde das árvores tem tons prateados. Apenas algumas flores de figueiras, chichás e copaíbas quebram a monotonia do concreto. Abro os olhos, feito asas de borboleta, e vejo a fauna paulista a louvar, destoar e imitar o meu próprio olhar. Meu gesto de mãos e boca é aspirina, o indefectível cigarro e o exercício do senso de observação. Black powers com headphones, peruas estilizadas, workaholics de terno slim, piriguetes urbanas, street artists, ciclistas, taxistas judeus, um batalhão de orientais, usuários de crack, gays de enormes óculos escuros, hare krishnas, línguas estrangeiras, hordas de expressões distantes, corriqueiras, paulistas. Todos entre branco e preto, sob chuva interminável. Antes da tempestade, uma lacuna de tempo. Mente quieta, corpo aquecido, sou, fora de mim, pertencente a esta tribo tártara, povo nômade. Estou longe de Atitlán, o local onde o arco-íris ganha tardes gris. Alô Paulista, eis meu amores. Porque são eles que mudam as cores vistas de mim no miolo da cidade que não tem fim. Gestos magnéticos, simbólicos, até criam, inspiram e curam. Minhas mãos sobrepostas sobre eles. Porque são eles que impelem minha força à frente até o coração do Ibirapuera. Uma cidade dentro de um parque e meu coração recipiente, pleno e profundo, em estado de yoga, em oferenda de energia, feito arranha-céu de concreto e vidro na capitania. Tão alto que minha aura pode até andar. Numa das mãos, um escudo antitristeza. Noutra, uma tela em branco, uma obra de arte do Masp, uma energia criativa, um mantra da paz. Eu, inteiramente templo de silêncio, ouvindo uma canção que nunca antes foi composta. Om Shanti Om na Avenida São João. Meus dedos logo tocando os raros lapsos de céu azul em resposta. Ali entre as antigas igrejas, estações, pontes, túneis escuros, grafites, pop art, velhos sobrados e a Pinacoteca do Estado. Há cheiro de poesia e comida tailandesa no ar do labirinto místico. Apesar do pesar, meu olhar vigia São Paulo. Do nono andar do Quality ou do subterrâneo do Metrô. Da esquina da Augusta à Consolação. Do Eldorado da Faria Lima ao posto da solidão. Contemplando a beleza tardia de uma das maiores cidades do mundo, sei que o sol, um dia, há de morrer. Existe amor em SP? Na lápide da efeméride da vida, jaz o sol. Em volta da opressiva paisagem sem fim é até possível ver luzes e calor, mas estou em São Paulo. Vejo cinquenta tons de cinza, mas não sou. E agora jaz o sol e o som. Jaz a soberba malha fortaleza, a quem rodeia pela parte dos Jardins e do Ocidente. Fico breves instantes em silêncio contente. O olhar marejado no físico fatigado pela poluição. Sim, São Paulo é um buquê que anseia respiração. Profunda e silenciosa. A cidade em feriado nacional. Este é meu pranayama, minha flor de lótus. Celebrando, no rio morto terroso, ladeado de heliportos, Nossa Senhora da Conceição. É a imposição das cinzas no tom da dor na margem das minhas costas. Tom maior azul celeste com pontos luminosos, subindo o dorso feito estranha saudade urbana. E do meu caminhar flutuante sobre a esteira do metrô, vendo a luz na fresta das folhas passar, o ar passa. No vasto formigueiro, cada movimento meu cria asas secas de cigarras na raiz. Cria razão e emoção. Amplia o ângulo de minha visão. Se não sou, de estilo ou referência, minha ciência do espírito está sendo sim. Non ducor, duco. Eis meu espírito compreendendo, aceitando, transformando. Oh, São Paulo, pureza do zen, sou seu humilde criado. Eu, sikh, curvo-me perante ti. E, por ser amor, toma e finda. São Paulo em mim é cinza.

Marco Antonio Jardim

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

ALULÍP OD OSSEVA - Número 53

Tela de Mari Lopes

"Quando ele veio ao encontro do povo, um homem se lhe aproximou e, lançando-se de joelhos a seus pés, disse: Senhor, tem piedade do meu filho que é lunático e sofre muito, pois cai muitas vezes no fogo e muitas vezes na água". Trecho das Escrituras, do colo de Sued, que cobre minha mão como luva, como adorno para cada dedo e razão daquele que Oicélc lançou, em riste, a mim: "Você tem algo de autodestrutivo". Qual o sentido do insulto? Eu que passeio pelo mar da Galileia, sobre o rio Jordão, no deserto da Judeia ou acendo âmbar no vasto do meu coração, como permitirei, em poucas palavras escritas, que ele destrua uma inteira argumentação? O que tenho são olheiras, um corte correto de cabelo, nenhuma barba e gratidão, que nada pode contra ambição desmesurada. Daquelas de animal carnívoro, feroz, superior a qualquer homem envelhecido. Eu, por minha vez caetaneando, sou o que sou e não bronzeio pílulas. Quando eu, de fato, envelhecer, vou ler o jornal no banco da praça, vou usar terno laranja e chapéu de abas longas, que hoje não me cai bem. Quando eu envelhecer, tudo poderei fazer. Além de mim mesmo, e do resgate do meu flow, do meu fluxo, serei fêmea, sacerdotisa, monja, mãe ou menina, "minha e não de quem quiser", como afirmou cantando Aissác. Na verdade, nem importa tanto a madrugada que sou. Ainda hei de escrever cartas de amor, mesmo que tenha de inventar um. E que eu dê nome a ele. Senegóid. Que gosta de chuva, de milhares de estrelas caindo do chão do céu. E o que preciso agora? Dormir, para sonhar com alguma fé espelhada na faca afiada. Confiar para desconstruir, deslocar montanhas. E regular o tempo desta cidade de frio cortante e desumano calor. Eis que Ozne nasceu neste mundo de belezas e enfrentamentos, enquanto Ilekim passeava de bicicleta no centro da cidade, enquanto meu corpo não se adaptava nem mais a lenços de papel. Quiçá a resistências e má vontade, rotinas, egoísmo e cegueiras de toda ordem. O que há, de repente, é nascer do sol batendo da janela pro meu rosto. Não é prenúncio de verão, mas é o sol. É um sonho de origem. Nele, há sempre um céu oriental, de azul quase noturno, limpo. Eu levito, as vezes com auxílio de asas, as vezes segurando balões a gás. Estou sempre sem sandálias. Encontro seres estranhos, de variados matizes. Deslizo por tubos diáfanos. Vejo pétalas ou estrelas caindo devagar. Acordo completo, sem princípio e sem fim. Muito mais sinto o gosto de viver. De respirar pela alma, como se houvesse só isso para notar. Isso é que é matéria esculpida em fé robusta, nas pequenas ou grandes coisas, na saúde ou doença, alegria ou tristeza, pobreza ou riqueza, até a morte e depois. Prometo, então, respeitar-me, ser fiel a mim e a Sued, que soprou no mundo que tudo se move, "inclusive o centro". Ainda que iguais a mim, como maldisse Amles, existam cinquenta mil. Só sei que eu mesmo não maldirei do meu destino. Engana-se quem pensa que tive dias assentados, silenciosos ou convencionais. Fizeram questão de me presentear com o tempo. A camiseta, antes panfletária, agora tem listras e botão. Em lugar dos cigarros franceses, chocolates meio amargos. Antes eram os braceletes fluor, agora é kit de barbear. Não ganho mais vodka e, sim, prosecco argentino. Se antes faziam festas-surpresa, agora me convidam para um chá. O avesso do avesso ao que deve ser. Continua a prevalecer a fé aos sete ventos e à saudade de Aleafar, incrédula às inversões do mundo, dos nomes, das pessoas de alma bem pequena, convicção vacilante, incerteza e hesitação. Saudade de Ledraj e seu olhar. Assim também é Ikrup. Asséptico, dorme em berço de falso ouro, numa cela artificial, rodeado de fotografias distorcidas e que, entre um cigarro e outro, cospe palavras impensadas. De outro extremo, Id, filho de escravos, nascido depois da lei de emancipação, ingênuo e perplexo, perdeu o rumo das próprias histórias e se encerrou como o escritor de um livro só. E eu, enfim, Okram, um marco de fé raciocinada e calma, sem tantas palmas a esperar. Minha única curiosidade é ver onde o sol se esconde. Caminho até o espelho mais próximo e inverto as alcunhas no reflexo. Lavo o rosto, passo as mãos, tiro as roupas usadas, faço um batismo de água e perco o fim de tarde sozinho, no entreposto da solidão. Eis o avesso do avesso ao que deve ser, senão. Sem nome ou sobrenome e que, pelo menos, mente a ordem do que sente sem sentir. Assim, do jeito exato e contrário que o seu nome escrevi.

Marco Antonio Jardim

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A PÍLULA DE MRS. DALLOWAY - Número 52

Ilustração de Julien Pacaud

Tenho já a primeira frase, a primeira expressão: "Mrs. Dalloway disse, ela mesma, que iria comprar as flores". Talvez esteja estalando língua distinta da minha, mas parece refletir certa proximidade com o mundo. Escutar outras vozes, em outros idiomas, outros gemidos mais fundos. Ter também outros casos. Em todo caso, aconteça o que acontecer, o quanto antes ela quer ser. Neste conjunto de espaços, corpos e seres habitados, que não é mais o mesmo, que há pouco tempo mudou, quer existir. Ter as imperfeições apontadas por si mesma, não por olhos alheios. Não quer união legítima, constituída e simplificada por um elo de metal dourado. Quer amor em excesso. Não quer nenhum destino deslumbrante para celebrações privadas. Este é o sonho de Marcela, não dela. Nada, a ela, é pouco espaço. Ainda que passe o passo de um para outro, ela quer a universalidade, a totalidade de coisas e pessoas. "Então, num fim de tarde qualquer, poderíamos tomar café", convidou Lara, uma amiga. Ela não quer. Sua vontade é fechar alçapão, cortar luz e ar e anular a irritante voz da velha vizinha e seu desventurado gato. Que se afastem os que não partilham dessa filosofia. Vazia é a que não se sabe o rosto, nem cor de pele, mas se agasta, deplorável, com o berro de suas palavras. Ela quer é que se complete, que se transborde sua voz escrita. No fundo quer é momento, espaço-tempo, pessoas. Prefere a sineta do moço dos picolés. "Coco, goiaba e creme! Tangerina, tapioca e doce de leite!", grita sempre, entre pilhérias e momices. A doce festeira Diane chegou a descrevê-la, certa vez, turvando a visão: "Você encanta". Ledo engano. A verdade é que ela se dobra sobre si mesma, servindo tão-somente de imitação da vida. Como mariposas e libélulas que por agora vêm surgidas. Num instante é nuvem. Noutro é praga e partida. Ela endossa que vai encher os bolsos de pedra, mergulhar o leito de um rio e morrer aos 40. Não cabe mais em si. Deixa-se romper. Cai em si só chuva fina no feitio de confissão. Ela? Solidão. Poesia que mapeia chão e mundo, alívio, triunfo, revolução. Alimenta a alma com alpiste, num jeito explosivo e esquivo de quem, no fundo, nada quer. Ela é a vida inteira em um único dia. Vai a festas para abafar o silêncio, escreve a totalidade das coisas, vai de mulheres e homens, pega pelas mãos crianças e velhos, doendo solidão insistente. "Quem dera pudesse a dor que entristece fazer compreender os fracos de alma, sem paz e sem calma", cantou-lhe Ângela. Sua irmã mais velha oferece ameixas frescas e sabonete de cacau no disfarce de refrescar sua alma. Sua mãe prepara o almoço de domingo. Seu sobrinho nota que ela escuta canções de outrora, mostra-lhe um pássaro morto e pergunta: "O que acontece depois que se morre?". "Retornamos ao lugar de onde viemos", responde ela, alheia. Alguns homens insistem no ato ou efeito de parecerem próximos. Bruno, de longe, vem vê-la. Flávio persevera uma visita íntima. Seu primo Tarlyson a tem por incomum. Um homenzinho giboso a convida para o teatro. Um outro, quase em torcicolo, a devora com os olhos. Um terceiro, anônimo, num gestual lascivo, a aguarda numa esquina escura. Nem mesmo os mais moços e nobres lhe parecem apetecíveis em formosura, como aquele enfermeiro sisudo de todas as noites na estação. "Sua vida é tão banal", aparenta ele, julgando-a na expressão. Até de quem ela almeja apregoar o nome nos classificados ou nos locais públicos, não se faz justo, antes comprometedor. Ela só lê, dos pequenos aos maiores gestos, interpretando os ingênuos pensamentos dos homens. E, observe, seu encantamento de mundo só se faz maior assim. Todos os seus sentidos ali na coluna vertebral meio arqueada, anunciados e falidos, onde se lê, sob ironia mordaz, "Visionary. A tributy to creativity". Ela é como o sol que cobra caminhada rápida depois da escuridão. O mar brando, de maré baixa, que exige saudade do sertão. É, outra vez, chuva fina que dança, reza, moe e lamenta antes de cair. É estrela que só se alcança quando sonham com ela. É pôr-do-sol só para quem sabe ver. É vento para quem vira sua esquina. Para Núbia é cheiro de mato, para ela é tão pequenina que - se cresce - se esquece. É ar fresco arrepiado em corpo molhado. Essência, porque pouco se pensa. Desses sentidos, Núbia, nada ela é porque não é de graça. É simples, comum, mas escrava da culpa moral e do tempo porque, ainda por cima, tem de enfrentar as horas prestando contas pelo ponteiro a "um mundo atento a não perdoar". Ela se despede, então, num exaustivo fluxo de consciência, das pessoas que mais amara na vida. Escreve, antes, duas cartas. Na primeira, conta que sente não conseguir passar por novos tempos difíceis. E que não quer revivê-los. Na outra, nem sequer consegue escrever ou ler. Livre do peso das obrigações e num desfrute pessoal de além carne, já tenho, dedicada a ela, a última frase, a última expressão: Mrs. Dalloway sou eu.


Marco Antonio J. Melo

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

PÍLULA PELO RECOMEÇO - Número 51

Tela impressionista de Van Gogh
No toque da alvorada, depois da perda das horas, acordei de sonho luminoso. Um reencontro com meu irmão Breno, na Chapada. Avivei o texto de sua voz em pensamento, enquanto a luz invadia o quarto. Olhei-me no espelho e vi constelação em minhas costas. Muito próxima do Polo Sul Celeste. Despertei e, sob neblina, eu não estava só. Mulheres campesinas me cercavam, segurando balaios de palha, derramando pétalas em mim. Senti o cheiro, afundando no chão. Cheiro também de pão. Eu vestia o traje menos amarrotado. Vestia minha vida simples. Ainda sonolento, caminhei sob o eco da voz de uma ninfa grega consumida por amor a Narciso. De tudo, ele lhe deixou a voz. "Confesso que eu gostaria que você não fosse o que é", disse pelo fim. Passaram por mim os últimos boêmios e os primeiros operários. Tirei da bolsa o maço de cigarros que não trago mais, joguei ao chão, juntamente com a resposta de não lembro quem, de cor marrom. "Meus olhos marejaram, preciso digerir o que li", divagou o homem sem rosto pelo fim. Tocava James Newton Howard, temas de filmes. Passava o tempo por meu rosto, meus jardins, minha cidade de interior. Refletia meu espírito margeado pela sombra da cerca do Poço Escuro. O clima estava impreciso, entre o frio e o ameno. Sons de folhas secas de milho ao vento. Segui suave, vivo após alguma morte, sem temer que me enxergassem. Naquela rua, no alto de um dos novos prédios, tem uma imensa estátua de anjo. Normalmente brilha ao sol. Sentei num banco da Virgílio Ferraz, por onde, submerso, passa o Rio Verruga, paisagem sem definição. Algum tempo eu tinha, então abri o diário para rever as impressões de Odilon. "Tenho saudade da Cíntia. Às vezes a vejo e a acho linda. Parece pessoa que não vou mais ver", lembrou pelo fim. Ri sozinho, onde meus pés fincaram alma. É que recordei a visita das minhas tias. Sempre carrego a sensação de que será a última vez. É que evoquei o abraço de Kenio. Onde me perco e me acho. Onde para o tempo no mar do coração. Onde me volto às origens, fora de quartos e salas, refugiado em tempo real. É a construção social da realidade, diriam Peter e Thommas pelo fim. Ou falariam de amor. E por discorrer em candura, Adla me procurou. Pomos à vista nosso perdão. A neblina ainda deixava o horizonte um tanto indefinido. Levantei do banco e segui a manhã do meu novo caminho. Passei em frente à Câmara. Gosto de observar aquele velho casarão restaurado, amarelo, a fachada secular, os passos de assombração. Desci pela esquina do hotel desativado, no beco do Candelabro. "Qual de vocês não acha belo quando ele desce, quando deixa tudo translúcido?", ouvi alguém sussurrar pelo fim da lojinha de artesanato. Deixei-me guiar pela avenida, entre estabelecimentos de roupa e de frutos do mar, por cima de folhas caídas, até achar outra praça. Numa das mãos, eu carregava um livro de Isabel Allende, e noutra, uma bebida gelada. Percorrer o caminho assim é como um convescote de manhã cedo. É a tradução de meu universo em algumas boas palavras, a essência do meu entendimento de mundo. Viver manhã assim tem certo sabor. De beijo leve, como o que Duh desejou dar. "I Think, I Love", eu escutava, pelo fim. Pensei que, talvez, Guilherme pudesse estar na sacada da janela. E estava. Semblante grave, analista. Horas mais tarde o vi tão absorto, dormindo no sofá de Ana. Quando acordou eu queria ter dito "Olá, estranho". Pelo fim da voz calada, eu não disse. O céu, já a esta hora, não se achava nublado. Há tempos que não ficava assim. Subi as escadas. Ana que me recebeu. Numa parede da sala, uma réplica impressionista. A cor da luz ali anunciava o passar do meio dia. Raquel me ofereceu uma taça de Cabernet Sauvignon rosado. Na copa, falava-se do Rio. Sérgio lembrou o mármore de Carrara, as construções históricas, o bonde, o burburinho do Santa Teresa, o Montmartre carioca. Renata, de Minas, ensaiou um sotaque peculiar. "Vou te escrever uma lista para você sentir", disse Raquel, sorrindo pelo fim do corredor, apertando os olhos claros. Relembrei o quanto é delicado viver, de uma forma ou de outra, em cada esquina, em cada rua estreita. Luc anunciou o pôr-do-sol. Fomos todos à sacada. Tinha um cheiro de magnólia no ar. Cheiro de nova estação. Já era quase noite, quase frio. Tempos depois, num quarto de hotel, ouvíamos um fonograma e Di confiava singelas histórias. Leandro, o de olhos cor de mel, abraçou-me, deu um beijo em meu rosto e se despediu. "Cuide-se", falou, pelo fim, como um clarão. Voltei à minha casa, ao meu quarto, ao meu tempo de então. No toque do ocaso, entreguei-me de novo ao sono. "Devagar a gente se acostuma a tudo", quase ouvi de Camus, pelo fim da impressão do dia. Afinal, de onde mais vem inspiração?
Marco Antonio Jardim

domingo, 15 de julho de 2012

PÍLULA DE FIM DE CENA - Número 50

Pintura de Bruce Holwerda

Perdi uma poesia escrita num papel pautado. Desmarquei uma reunião de decoração e arte. Deixei de ser no mundo a parte da mudança que eu quis ver do mundo. Não fui ao velório de Miguel. O bom e jovem homem Miguel. Perdi uma cena. E a orquídea abrindo em flor. Não sei mais se a vida segue o curso da criação eterna à morte de todas as afeições, da vida interior às relações de amor. Não sei. Não fui ao sacramento de Bianca e Danilo. Não por serem efebos, mas por eu mesmo ainda não ter acreditado no estado inspirado de paixão permanente. Descumpri o prazo do projeto de alto valor de densidade. O projeto da verdade. Trocando em miúdos, ainda uso os mesmos sapatos. Vivo imprimindo listas de pautas atrasadas. O que será que será, então? Deve ser meu cansado querer um jeito novo de reinvenção. Daí escrevi um texto sobre, sei lá, aquecimento global (e o que se poderia instituir como mudança individual). Mas todo mundo já escreveu todas as letras. Tenho, pois, travado essa luta cotidiana com palavras e inspiração. Luta vã, diria Drummond. Recolho-me ao anonimato. Até os suecos do jj o fazem! E os carecas ingleses também. E Ana Luisa quando na província argentina. De toda forma, eles são mais humanistas e sonhadores do que eu. As minhas ideias têm nascido mortas. E por mais que eu anseie por novas verdades, as eternas já estão aí. O celular não para de tocar. Deixei de atender. Deixei de marcar, orientar e assessorar entrevistas. Calei os verbos revisados. Só sento quieto numa cadeira se for para minúcias. Para coisas miúdas. Ainda que, na química do tempo e da alma, nada é tão infalível assim. Nem os diamantes. Chamem de autoironia, falsa modéstia ou o nome que quiserem dar. "A ordem das árvores não altera os passarinhos", cantou Tulipa. Não entendo mais a parte técnica das inscrições. Minha figura tardia está esculpida tão-somente no panteão dos insones febris. Meu epitáfio: breve elogio a um morto-vivo. Visto o costume, ponho o chapéu e caminho sob o guarda-chuva escuro feito fotografia esmaecida. Não fui à exposição das histórias que contam histórias das várzeas. Está tudo apagado em mim, tudo ardendo, e há suor nas têmporas. Se há crise, perco a cor, sinto o ar gélido passando pela espinha, soldo o sangue e as perturbações. Tudo parece assim...uniforme. Até a luz do sol. E as impressões de Túlio ao fim do texto. Fim de cena. "Dizem", foi como ele designou meu egoísmo cotidiano. Um expiro, eis o que sou. Claro que acredito que há amor em algum lugar, mas nada que valha uma manchete, um vestido de noiva. O tráfego da peça que preciso julgar é o mesmo da faculdade de pensar. E até deste direito pouco sei exercer. Na adversidade, até que me ponho à prova, mas desfaço as ligações. Enquanto isso, na justiça da sala, a celebridade bebe um Pinot Grigio. E eu fico a contar o tempo em lapsos de memória. Delongas, adiamentos, prazos estourados. Primeiro turno, segundo turno, descuidos, faltas, erros. Já se faz noite e a enfadonha agenda da vida não se encerrou. Está sentindo? É o cheiro da manteiga de karité da África nos meus pés e aqueles mesmos sapatos. Salivei a boca seca, escutei Joni Mitchell, mas, quando olhei o espaço sideral até onde minhas vistas conseguiram, lembrei outra vez da minha pequenez. Lá vem o vice-prefeito, o secretário global, a especialista em consciência, o marketing da Coca-Cola. Tem sempre gente importante querendo ir e vir. Esquivei-me deles pelas sombras do corredor. Meu nome está em digressão no expediente do folder. Divaguei, errante, e vou desmontar as mesas. É o papel que me cabe. Oito parafusos e a falta de um instante. Olhe que nem apontei o dedo para as alterações da arte. Picasso no Met, meço o espaço. Outro dos meus pobres afazeres. Quatro metros, quase passos. Descartei o mapa porque não há tempo hábil. O que há é erupção no Eyjafjallajokull, aumento das marés do mar Adriático e o fim de Veneza. A inexorável transformação explorando as angústias do tempo de então. Parece até poética, se não fosse ingênua essa política de vida, essa teologia da modernização. Cumprimentei jornalistas em horário de almoço. Lobby. Mato formigas enquanto eles enviam e-mails. Convenci o fotógrafo na escolha do ângulo errado. O agudo, o côncavo e o conjugado. Reuni a equipe no meio-fio, evitando amenidades. Arestas, cantos, esquinas, cidades. A rede está entrando em pane. Descartei os colunistas, não atendi a paisagista, não contei fábulas. Não fiz amém a ninguém. Não há condescendência nem solidariedade. Nada de melhor na vida é de graça. O tempo, meu bem, só passa. Desci as escadas carregando caixas, encaixotando Helenas, degrau por degrau, manual por manual. Estou queimando em mim, fazendo tudo de novo todo dia, do jeito moroso de sempre. Até chorei num canto, cansado, mas sou como Kafka, literatura fugidia. Um feito fake por dia, desviado do destino. Agora mesmo sou todo dor, um fingidor. E tenho febre. Do mar ou do amor? A gente é feito mesmo pra acabar.

Marco Antonio Jardim

sexta-feira, 29 de junho de 2012

PÍLULA A CAIO F. - Número 49

Escultura de Antony Gormley

Tomara que a cidade possa ver a cara alegre, a cor do som distinta no gosto do prazer. Parecia prévia de festejo, Caio. Eram, no entanto, lábios secos, seca no coração de outros, racionamento no regime de Assad. Dizem que é preciso que se suporte lagartas antes de conhecer borboletas. É como uma solenidade colorida, efeito da cachaça jararaca, cheia do chocalho da ébria vida. Depois de alguns copos, outras mulheres e um mesmo desejo fêmeo da vulva ao útero, as melhores histórias surgem aqui e ali, como uma infinidade de possibilidades, como nas esculturas de Antony Gormley. Vi culminância na arte ruge, Caio. Auge na órbita do corpo do garoto de programa. Alterego. Mergulho cultural e estético, afeto sexual. Muito depois da vigília destes satélites artificiais, eu vi um arco-irís. Celeste, de alianças, sem chuva, feito bandeira num circuito da cara, coragem e altivez. Um espectro contínuo que brilhou vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, violeta e anil. Uma parada que não viu desordem, só se viu feliz, com gentes, gêneros, orientações, idades, verdades. Gente alegre, Caio. E todo o sentido da continuidade. Da mulher que cortou um broto alheio para o próprio jardim ao tenente valente que se vestiu com o short carmim. Das poc poc às barbies do Chuí. Das caminhoneiras às femininas. Do (fe)menino bem mais porto alegre que seguro. Dos curiosos aos que usavam brincos rosa-choque escuro. Das duas faces de Eva e "um certo sorriso de quem nada quer", você riu. Do senhorinho esguio subindo a ladeira com seu paletó largo e seu tempo sem pressa ao garoto de sandálias gastas empurrando a galinhota de verduras. O que vi, Caio, foi histórico escapismo, encantamento e ilusão. Vi uma prece ao infinito. Das estradas olhei aos lados por costume e por gosto. As estradas do entreposto do passado, sob sol e vento. Da montação à celebração, foi o que vi. Noutro tempo, via meu pai. Guardava filmes na geladeira. Eu, por vez, colecionava os carretéis. No teto da cozinha sem forro, um imenso montículo de cupim que descia das telhas até onde eu pudesse alcançar com as mãos. Nas tardes de sábado, como esta de agora, cheias de sol, meu pai levava melancia e jaca ao quintal para reunir a família. A nossa rua não tinha tanto comércio e a casa era caiada de amarelo, gasta pelo tempo. Ficava vazia também aos domingos, sem veneração. Ah, Caio, eram estes os velhos e bons sonhos. Nem todos se concretizaram, mas foi bom tê-los. O tempo é este processo profundo de adaptação, descoberta e sobrevivência, sem miopias, sem vassalagens. Morrer, hoje, não basta. Morrer é que é o mal-estar do século. Talvez por isso não tenha me despedido de Elvira. Sei que vou reencontrar sua discrição. Não é conformismo nem princípio de incertezas. Não é nem sequer o pensar em me pensar demais, Caio. É só o imaginar do sentido e do fazer da vida. Pois quando me vi embaixo daquele gigantesco tecido multicor, daquele estandarte simbólico, fiquei com vontade de gritar o que sou ou de chorar em despedida, como fez Clarinha. Só sorri e pensei no quanto as coisas da vida parecem fulgazes, fantásticas e inatingíveis. Eu sou mesmo um clichê ambulante, Caio. Um heure bleu, um azul intenso da França ou, por Alain Bergala, sou o aprendizado do amor incondicional. Em outras vezes sou só impressão. Vez em quando toco pandeiro como Rayza. Toco violão como Massumi, Duh ou João. Fotografo como Purki. Ou desenho rabiscos iguais aos de Xande. Ou me faço jovem ator, como Dani. Geralmente, Caio, escrevo. Cartas. Ou escrevo para velhos, como gritou Sônia nos mesmos sonhos adiados. "Quando escrevo pra você, é como se escrevesse pra mim mesmo", você costuma dizer. Em algumas horas sigo os dez mandamentos desse espírito livre, em outras envelheço. Tenho um pensamento móvel por demais ou o que tenho é culpa. Peço sua desculpa, Caio. Peço pra ver a remissão da minha dívida. Faço agora minha romaria bretã, no afã de dizer que meus dias não eram assim. "E quando passarem a limpo, façam a festa por mim", completa você. Onde fui acostumar meu olhar, hein? Naqueles dois? Marejei os olhos ali, no jogo de cena, nas memórias, na poesia, no cinema de Almodóvar, na música da minha cara lavada, na repartição, para pedir perdão por minha língua incompreensível, por minha letra morta. Eu estava, sim, "num deserto de almas também desertas". E vendo Raul ou Saul, lembrei de Jhon. A calça jeans meio caída, o jeito de cruzar as pernas, a cabeça um tanto baixa, o olhar apertado, oriental, o sorriso inesperado, a fala mansa, mineira, a profunda beleza de pele branca, o abraço eterno e o jeito de pedir um cigarro. Lindo, sempre assim, feito luz natural. Não foi um dia de calma o que vi, Caio. Mas dormi nu, como um arco-íris na cartola. E acordei me perguntando se sou, de fato, imortal.

Marco Antonio J. Melo

quarta-feira, 13 de junho de 2012

PÍLULA DO MAR SEM FIM - Número 48

Tela de Kathryn Lynch

Domingo de decisão, considerando, sobretudo, que é dia de desorientação, que vem depois de outrora, rumando para inumerável infinito. Talvez dilema, embaraçosa situação, como chamar o diminutivo de alguém, passar os minutos pensando se fui correto e o errado se impor. Depois de vir embora, expulso do templo do tempo, melhor assumir domingueiro o espírito encarnado e matreiro com alguma elegância. Ponho os santos indianos de barro dourado de costas à porta, como reza a história de Ariany, e vou. "Seu perfil parece argentino", disse Ed. Um rioplatense à moda antiga, talvez, mas tão malandro e poeta quanto o Brasil ou "bola japonesa no céu do sertão". Tai diz que assobio autoajuda, ou qualquer religião. Digo a ele quê o que escuto e vejo é menos que alienação. "O infinito é tão-somente fantasia", completou. Sentei no banco de alvenaria da praça Nossa Senhora da Luz, olhei a fonte um instante, tentei ler um artigo sobre a tendência do homem natural, acendi um cigarro mansamente, segurei a coleira do cão, e nada respondi. Um vestígio de homem diluído pelo sol parou e afirmou: "É distinto até com o maço de cigarros". Artur, ao contrário, costuma dizer que tenho cheiro de brechó. Lucas apela ao viço da pele. Eu, por minha altiva tez, digo mesmo que não tenho limites nem fim. Tal qual o espaço, infinito. Como quando eu caminhava pela varanda da casa de Tia Zorilda. Um cheiro de quando a vida tarda a passar, da pausa para o sorvete, do jovem casal tatuado passando ao tabique com sua criança de vestido rosa. De quando eu corria pelos cômodos antigos até o quintal de azulejos, ladeando a quixabeira. Ia às pressas à pia de louça talhada para o rosto banhar. Corria a água no rosto como que lavando as rusgas de opinião, as expressões viciadas, os pensamentos vãos. Olhava pela moldura decorada do espelho e pensava: por que justo a mim cabe a obrigação de ser eu? Assim, com princípio, menos infinito do que Deus. Movia-me então, feito síndrome de Mafalda, ao parapeito da janela. Via passar Sussuarana, Pau da Lima, Doron, até a igrejinha. Comprei meu bilhete de passagem ao futuro sem horizonte definido. Na passarela, filipetas propagandeavam cartomantes de óculos escuros. Bruscamente, numa esquina, uma moça chorava agarrada aos seus murmúrios e um homem, com arma em punho, ordenava que outro deitasse ao chão. É o mundo, sem perdão. Tudo que existe, e nem sempre se pensa, é assim...urgência, ansiando por renovada inteligência. Lentamente, sem nenhum traço de pressa, voltei pra casa e dormi, como barco a circum-navegar pelo raio do sol. Chamaram-no de Tûranor. E a tarde foi caindo ali em tom cinza-outono. Em meu sonho, uma bela mulher deu-me pimenta de cheiro, abacaxi e melaço. Um homem, de alcunha Canadá, deu-me carona de volta em sua própria barca de mar. Viagem gratuita de infinitas ondas de alegrias é dormir. "Larguei meus sonhos em alto-mar. Meu peso em ouro para quem encontrar", cantou Luiza de pé sobre a embarcação. Verso esses elementos ilimitados porque nós, poetas do sono, acertamos quando rimamos. Não fosse assim, o trecho deserto da praia do acordar seria só areia com histórias aqui e acolá. Coloquei, última vez, meus pés na água. Vi uma tábua, uma tartaruga, um cão uivando, um rapaz se equilibrando na cerca do tempo infinito e um corpo azul-dourado correndo seminu. Sustentei o olhar em rochedos não muito distantes. Pescaria de fim de tarde. Homens jogavam e puxavam a rede. Outros içavam a isca na linha do anzol e atiravam ao mar. Das canoas ou das pedras, o tempo era o da espera, o da imortal humanidade. "Homens de azul com seus peixes que brilhavam", sussurrou Coco. Despedi-me para despertar. Nuvem na baixa, sol que já não racha. Nuvem na serra, sol que já não terra. Fitei o horizonte e fechei os olhos de brisa e de fronte. Fiz amor com o tempo permanente. Se tudo em movimento é tão consagração e profundo, meus pensamentos também são. Sãos do mundo. Acordei, os olhos em júbilo, superiores a todo limite, muito além da luz do farol. Bem cabia uma profecia, cantarolei baixinho, sozinho. É que sempre que sonho com o mar, parece ser também sempre a primeira vez que o vejo, sem cessar, sem interrupção, como que o coração na maré, vestindo a fé de nunca partir. O mar, quando vejo aos domingos, é coisa que, dentro de mim, não pode ter fim.

Marco Antonio Jardim