segunda-feira, 21 de abril de 2014

GRATIDÃO - Número 66


Gratidão.
Diz a canção que saudade é pra quem tem. Gratidão também.
Esse reconhecimento de uma pessoa por um tempo por conta de uma reciprocidade, uma sintonia quase inexplicável.
Da janela do avião, visto pela inflexão do vidro, parece cinza amarelado o matiz dessa expressão. Eu esperava ver azul. Mas vi uma gradação difusa, feito fotografia gasta.
Vi até chuva, martelando a serra lá embaixo.
Tudo morno e molhado, em curso d'água quase impetuoso.
Um tanto antes, na cidade que não volta, vi marchinha de Carnaval.
Vi a menina linda com uma pena multicor numa das orelhas transitando o terminal, enquanto que eu, iogue no chão, lia.
De lá, de cima, no entanto, não vi o mar. Não vi resposta. Não vi sinal. Porém, gratidão.
Meus olhos, finalmente, descansavam os dias pesarosos ao prescrever a chuva cumprir seus desígnios.
Em Campinas, vi uma senhora sob guarda-chuva escuro e um rapaz de camiseta. Moviam-se ao mesmo tempo, mas com vagar, no saguão do aeroporto.
Horas que não passavam e eu gostava.
Saudade.
Do santo espírito, ainda ao amanhecer, vi chegada e berço. Fé e esperança. Os frutos de lá eram todos bem-vindos, pareciam dizer.
Agora, sim, sol em abundância, sucessivo de muitas coisas que eu veria mais. Gratidão, pois.
Decidi, então, já que ia de táxi até a velha vila, ficar um pouco mais. Ver deitar o sol sobre os braços deste primeiro eterno dia. E fazer dos sorrisos todos um abrigo de alegria. Depois partir, francamente feliz, abrindo a janela pra ver, sobre a terceira ponte, o horizonte cantando pra mim qualquer coisa assim sobre eu chegar.
Saudade.
Meus olhos, pousados numa esquina, aguardavam sossegados na brisa.
Via o burburinho da feira livre, debaixo da ponte, cheiro de frutas, pastel, morangos e caldo de cana. De uma porta um pouco além, ao lado de um bar festivo, surgiu todo aquele mistério. Até os fatos seriam assim, um tanto quanto misteriosos.
Então, eu vi. O mundo, eu sei. Carregando minha mochila nas costas.
Fui lá, andei ao lado, reconheci, olhei, abracei e segui um caminho só, buscando alguém que estava em minha memória há mais de um tempo.
Gratidão por aquele eterno amplexo.
Subi um lance de escadas, entrei numa porta à esquerda, senti o cheiro de casa limpa, peguei um travesseiro de fronha branca e coloquei sob a cabeça. Um outro, de fronha roxa, coloquei entre as pernas. Respirei aquele cheiro inesquecível e dormi.
Possivelmente, esse foi o primeiro sono leve do ano.
E acordei saudade.
Tudo aquilo que eu desejava ver estava no cômodo. Os calçados atrás da porta, a bagagem no chão, a cama baixa, o cachorro quase empalhado na estante, os gnomos guardados, o tempo.
O amanhã eu nem queria ver ou dizer.
Meu coração teimava em bater e sorrir a esmo, clareando minha vida nesse olhar.
Levantei, tomei um banho demorado, coloquei roupa leve e colorida e saí pra ver o sol. Tudo tão cheio de sol, que não fiz esforço pra acertar as esquinas. Me deixei guiar pelo cheiro do mar.
Um universo azul se abrindo sob o efeito de cada espuma que morria devagar na areia.
Gratidão ao horizonte.
Ao longe, navios cargueiros. Por perto, a água e o sal do mar gelado.
Como há muito não fazia, tornei a inventar meu tempo, sem viver do mesmo arranjo.
Saudade da costa da praia. Foi como nomeei meu jeito novo de sentir que estava ali, com a alma em bem-estar, com um princípio genuíno de vida, um riso e o olhar de pleno vigor.
Peguei uma cerveja e fui me deixando ir pelos caminhos.
E via crianças, cachorros, bicicletas, triciclos, prédios com varandas de vidro marinho, afetos e um sopro quente passageiro de fim de verão.
Sem notar, era noite.
Gratidão, de um lado a outro, pelo fim da tarde e era noite.
Eu podia ouvir o vento passar, podia ver a onda branda bater, eu podia ver morrer, acordado, aquele tempo parado. Eu podia ver um pórtico, uma escultura de Iaramar, um quase píer, uma casa sobre as rochas, um cheiro de cravo, um torpor na mente e o prazer de conhecer esse gosto sem igual.
A tal felicidade, sombreada na areia noturna, agora chama saudade.
Sentei, conversei, andei de encontro ao vento, respirei o mesmo ar, olhei de canto de olhos e vi outra vez, sorrindo, como um dia de domingo.
E acordei ao som de sinos.
Profunda gratidão àqueles sons marcando os dias.
De onde vinha aquela calma? Aquele jeito tão sem defeito do tempo.
Fotografei a saudade e segurei na mão dela. E, assim, calado, fui coroado com um sonho se exibindo pra minha solidão.
É preciso força pra sonhar e ver uma estrada que vai além do próprio ver. Vai até a madrugada. À casa mal-assombrada, ao teatro da praça, à escola da Marinha, à casa dos padres, à outra com os sete anões.
Os braços do tempo tocando nos meus.
Dentro dessa madrugada estiveram os olhos, as minúcias, o afeto, a verdade.
Então, abri meu coração pra um novo dia amanhecer e, atrás de um sonho, correr.
Além da praia, sem data pra voltar, deixando o tempo levar, havia um solitário pescador e sua pequena embarcação. Ele, o barco, o céu, os pássaros, o mar da cidade, o horizonte e o oceano em seu olhar a navegar. E as rochas dividindo uma enseada em outra, em níveis distintos.
Saudade dessa hora que ainda sinto.
Do cheiro de comida caseira, tempero, frigideira, suflê, mesa posta, ritual.
Isso que senti quando vi o tempo por trás da janela, dormindo, de pernas cruzadas. Um cheiro umedecido e embriagado de bom dia do ano.
Dia de fazer recordar algum triunfo. De se deixar encantar no exato lugar onde se está. De chamar um sentimento bom. De executar aquela ideia de fazermos um mundo inteiro, feito ele de calor e suor. Saudade destes minutos tão físicos, tão cheios de poros, sabores, gestos, movimentos e o corpo do tempo mapeado, tirado partido, sem quadradismo, só com o coração como expressão.
Não sei fazer poema de outra coisa que não fale senão de amor incondicional. Portanto, gratidão.
E quem diria não?
Subi um morro inteiro, sem tabela de preço, com sorriso largo e profundo, parte descalço, além de qualquer cansaço, buscando uma foto de cartão-postal colorido.
Aquela vastidão tão acima do moreno morro. Tão perto do céu, aquele estupor. E tanto mar.
Um presente infinito, um silêncio e, de novo, aquela voz do tempo que não quero perder.
Saudade.
Acenei pra quem me acompanhou com os olhos do outro lado da cidade, além da ponte principal, dos cargueiros, da avenida de nome estranho.
Pena de quem nunca esteve lá e depois, em cada despedida, saudando o sol, no caminho das pedras, até a Penha e sua romaria.
Saudade da presença de Sofia, a avó dos tempos todos.
Do cheiro de flor e de amoras. Dos retratos, das imagens fugidias, da vista e das pistas no trajeto, da orquídea, das caranguejeiras, da meditação na rocha, do terço e de todo o restante de lugar, do sagrado à escadaria.
Do píer, da marina, da restinga, da prainha com ondas breves, de molhar os pés no cais.
Da orla iluminada e do píer de Camburi.
Das tartarugas que não vi, dos patins e até da Cebola que só vislumbrei pelo portão.
Não há tempo como este que volte, então...gratidão.
Eu vim de longe, do outro lado desta terra, além das missões, por isso a falta que sinto deste mar vasto.
Da pesca, dos siris e até da noite chuvosa de verão.
Às vezes eu só queria descansar, deitar no ombro deste tempo, entrelaçar os dedos, morder meus próprios lábios, receber um tagaté, ser quase um.
E, assim, ia vendo o céu se pondo vermelho de sol, filho eu da eternidade, com vento sobre os pés, perdendo a hora e o lugar. Sem destino, um tanto sozinho, dançando com a solidão e acordando noutro instante da imensidão.
Tomei banho de phebo, raspei os pelos com navalha, juntei as frutas, o biscoito, o olho grego, calcei os tênis, vesti a primeira camiseta puída que encontrei na mochila de viagem, botei a calça clara e segurei o agasalho com o cheiro de sempre.
No dia último, nenhum alento, nenhum sopro, nenhuma declaração universal.
Da janela do ônibus, uma constatação final, cheia de soluço, saudade e gratidão: despedida eu vim. Bem se diz que todo Carnaval tem seu fim.

Marco Antonio Jardim Melo

sábado, 15 de fevereiro de 2014

OS SINAIS - Número 65


De quando tive a consciência despertada para o sentido da espiritualidade, até hoje, mesmo que estacionado em algumas práticas, percebo sinais. E eles me percebem também.
É um fenômeno presente, um vestígio do que se pensa, do que se quer, um artigo de fé.
Uma mancha na pele, uma cicatriz. Um aceno, um gesto.
Uma etiqueta para fora na camisa do principesco, uma assinatura cursiva.
Ou qualquer outra manifestação que pareça presságio, prenúncio.
É também o futuro. "O futuro não é um lugar que se chega. É um lugar que se constroi", alguém disse, como um sinal.
Estes lugares são como postes de luz e advertências para mim.
Um gato na porta do meu quarto. Uma borboleta na ponta do guarda-roupa. A estranha deferência com que minha mãe arruma meus pertences. Um agasalho que não perde o cheiro, deixando as coisas visíveis. Uma sensação sentida ao mesmo tempo em dois lugares diferentes por duas pessoas que se amam.
As mensagens do dia que me aparecem em trechos de revista, páginas de agenda, pedacinhos de papel.
O mundo inteiramente meu criado nos sonhos, nos desdobramentos, com vozes sussurrando: "tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais".
E eu não duvido, apesar de, por hora, quase esquecer.
É como o nascer do sol no horizonte de uma manhã de domingo, ou mesmo o pôr do sol fotografado da janela do corredor (fotografia perdida no celular assaltado, mas memória em sinal permanente).
O deus Sol egípcio, Amon-Rá. Diz-se que ele abria as pálpebras, o dia despertava e se espreguiçava. Daí ele se vestia, ia para a barca de ouro e seguia, silencioso, pelo oceano, distribuindo luz e calor. Mesmo que ele chorasse, suas lágrimas eram sinais de boa sorte aos homens, ao mundo.
O dia amanhecendo é uma bela marca e um meio para sorrir. E para trasladar em palavras, como fez Leminski: "Uma semana, um mês, um ano não dão para a saída. Nada passa igual a um dia".
Nesta soma de dias (ou os últimos cinco meses, pra ser mais preciso), de sinais, como o dobre dos sinos ainda não finado, caiu a chuva, caíram pitangas, e, agora mesmo, enquanto escrevo, é um sinal que eu tenha encontrado uma imagem em que minhas mãos se juntam em oração.
É o verão que ainda não se encerrou.
Espero eu, com serenidade, que tais indícios, permitam-se fechar este estio no Espírito Santo (vide o nome, já um sinal).
Lembro que, há alguns dias, estive caminhando sobre os paralelepípedos de uma rua mais estreita da minha cidade, carregando minha mochila e minha saudade, sob chuva fina misturada às lágrimas.
Eu era um átomo no átimo do tempo.
Sabia que a chuva passaria, então me enchi de poder, conhecimento, certeza e simplicidade.
Era um sinal vindo dos céus a me lembrar que eu sempre passei por ali.
Algumas pessoas também passavam por mim, cheias de vapor d'água, sorrindo com os olhos. Talvez, elas, compreendendo que aquele caminho que eu seguia tinha, ele próprio, uma história madrugal para contar.
Eu vivi os últimos meses em rede, como uma inteligência autônoma, livre, caminhando livre, conectado ao mundo por um simples aparelho de mãos.
Vivi interligado e, sobretudo, em sintonia fina com uma das pessoas que mais amo e que reconhecia, em tempo real, todo passo meu dado, mesmo em meio à maior confusão funcional do mundo, mesmo num apagão.
Eu via, e vejo, pelo celular, ou não, pela música escutada no fone de ouvido (canções que, cada uma delas, tem uma recordação afetiva), pelo folhetim, pelo próprio olhar dedicado às pessoas em volta, de variadas cores e línguas, e dizia para mim mesmo: "eu sou livre".
Então, derepente, fui agredido impetuosamente e de surpresa. Fui perseguido, fui assaltado, fui violentado na alma, refletida agora em marcas feridas no corpo.
Sinal.
Pareço oco (louco) nesta autoafirmação? Mas é que ainda tenho centro.
Levaram-me uma das máquinas mais fabulosas da humanidade no estágio atual (a dizer: um iPhone 5), mas ainda me oriento pelas estrelas.
Pelo mapa de Guimarães Rosa. "Mire, veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando".
E amando.
Este sentimento que empurra as criaturas, mas que nem sempre elas se dão conta, como o vento a impelir uma embarcação.
Naquele instante, eu estava pensando em viajar (se, de fato, eu for), já ansioso para ver o mar (e para abraçar por longos minutos abrindo a represa da saudade), e estive, por volta das 22 horas, com um companheiro na saída da academia. Não convivemos nos mesmos círculos, mas, em sintonia, ficamos a conversar por alguns minutos sobre o tom da vida, sobre a importância que damos ao dia de hoje. E logo nos despedimos com a frase "carpe diem". Ele ainda me ofereceu uma carona, um sinal. Virei a esquina sozinho e...agora estou onde estou.
Vivo.
Amor é isso, não é? Um pouquinho de qualquer coisa sem nome que dá um descanso, um respiro à loucura.
Fico pensando se "o outro lado" tão retratado pela angústia de Diane Arbus não fosse a figura principal. Se fosse apenas o dia em sua Rolleiflex, ou se ela tivesse uma máquina digital.
Pra mim, o sujeito de uma fotografia é a possibilidade de ver tudo nos mínimos detalhes, no dia. Dos pedacinhos de tafetá dos enfeites à cor azul do céu e âmbar da areia, do mar, do coração no asfalto, da expressão do meu corpo em evolução, do cactus que agora cuido delicadamente, da tentativa de registrar minha alma e das manifestações divinas.
O que me dói (e muito) é, com o assalto, eu ter perdido este álbum de recortes dos meus dias e um tiquinho da sensação de acreditar ser livre.
Rastreamos, identificamos, ativamos um barulho, choramos até.
Mas, numa clara mensagem de resignação, os dispositivos desta pequena pérola estão offline.
Quero ser, então, eu mesmo, editor das coisas que acesso, das pessoas que sigo, das redes que crio, do conteúdo que sorvo.
E você, Deus, vem chegando para brincar em meu quintal. Sim, eu já escuto os Teus sinais.

Marco Antonio Jardim

sábado, 25 de janeiro de 2014

AIXTERUH - Número 64


Depois de meses, passando por inverno, outono e solstício de verão, volto atrás pra pensar o caminho trilhado.
Antes disso, vou buscar o significado literal de amor, pra distinguir dos incômodos alheios.
Amar, até onde penso, não tem nada de patético, nem é tão ridículo quanto as cartas de Pessoa e soa muito maior que simplesmente comover.
Não amar me parece reflexo de um mundo febril.
E não dizer a este mundo que há amor, se há amor, me parece, aí sim, um tanto quanto trágico, pra não dizer desleal.
Pois que amo. A Deus, amo alguém, e o próximo de alguém, ao meu gato persa, e ao chão que piso quando acordo dia após dia, ao tempo, ao vento, à liberdade, ora aqui por perto, ora perdida na esquina do meu coração.
Eu amo e grito, adoravelmente brando, suave, mas sem qualquer tempo ajustado. E - por que não? - grito no Facebook!
Eu subo a serra, mesmo que num olhar distanciado, vejo o horizonte azul, os parapentes flexíveis e suspensos no ar, o mar invertido, plácido, ladeado pelas rochas, cactus, flores, e grito: amo! E fotografo esse aceno e esse som com exclamação.
Não há como refutar, entende? Amar é uma inclinação ditada pela lei universal. É um gosto vivo. E também os cheiros no ar, de misto duplo ou de pitangas, de batata doce, de pão, de torta de limão, de trufas, de pizza até.
Amar é uma mesa posta, uma afeição inteira, do tamanho de um abraço demorado. "Você me abre os braços e a gente faz um país". Amar é isso!
Via de regra, os capítulos de minha vida giram, assim. Iguarias tratadas como, talvez, um bem comum. Uma verdade que bate à minha porta de quando em quando. Ou quando eu mesmo bato à porta alheia.
Uma parada no Posto da Solidão pra tomar um suco industrializado (afetuosamente apelidado de stricnina), uma ocasional latinha de cerveja num banquinho de uma praça, chocolates na loja de departamentos ou um saquinho de doces secretamente (ou nem tanto) deixado numa varanda.
São, sim, intenções veladas (quase bobas, de tão belas) de determinar meu sentimento, minha orientação. Meu amor.
À boca miúda, afirmam que estou delimitado ao drama. Uma ou duas pessoas. Não tem importância. Penso que é choque de quereres.
Minha resposta a esse prenúncio chuvoso? Quem define os outros, se limita. Melhor mesmo é demarcar o caminho.
Começa na ladeira da academia, passa pelo asfalto onde tem um desenho semelhante a giz em formato de coração, desce pela praça onde os cachorros ficam soltos, segue pela rua da árvore de pitangas, dobra à esquerda atravessando a placa sinalizadora de "Pare!" e não para ao meio-fio onde costumeiramente sentava, culminando no muro antes vermelho, no portão e naquele chão que era de cimento cru. Deitar ali dá saudade, irmã do tal amor.
Pareço um estrangeiro impróprio? Um extra-terrestre? Ah, seu moço aí do alto, do disco voador. Me leve com você, seja pra onde for. Ao sabor da brisa, me leve. Num respiro profundo, num pranayama, me leve. De dentro pra fora, de fora pra dentro, apurando o instrumento, leve, leve, leve.
E, se ainda assim eu não tiver inspiração, faço como minha geração: remixo. Mas continuo a amar declaradamente.
Se gostam, ou não, "whatever, forever", mudem a faixa.
"You don't know me. Bet you'll never get to know me". Na minha trilha sonora de malhação, também tem canção de amor! E na piscina, presto atenção nas conversas da raia ao lado. Foi assim que tudo de eterno começou.
E na meditação, na posição de lótus ou na invertida, felicidade, perdão, abundância, gratidão e amor. Destas coisas, sim, tenho infinita saudade. E dos abraços apertados (raros, mas vivos), dos afetos e cócegas e risos inesquecíveis, do agasalho dado, da corrente de prata emprestada, do presente eterno que não abro mão de ter sustentado quase ao peito numa oração permanente, dos gnomos, das amenidades dos dias.
Se, por hora, é pra eu me obrigar a ficar em silêncio, eu fico. Por amor, diga a todos que fico.
Se é pra eu derramar uma lágrima aqui ou ali, choro. Não tenho vergonha de ser.
Mas sigo pisando no passeio de cada rua que faz parte daquele caminho, como que num tapete de flores vermelhas e amarelas, e finjo que nem é comigo, que é só com a vida.
Minha gratidão a este silêncio, pois. E quando bate a saudade, nem vou pro mar. Eu só fecho os olhos e sinto um braço e uma mão tocando os meus. Deve ser o vento.
Pois que reafirmo aqui o amor, sabe? Um outro mundo assim é possível.
E se faço algo errado, eu peço desculpas, e reinicio o computador do mundo (mesmo que não funcione a webcam).
O mundo também toma forma no pensamento. Eu sou ainda muito jovem de corpo e muito mais de espírito. Santo? Não. Mas sou de duração indefinida.
Sou astrólogo, acredite! Ou macumbeiro, como graciosamente se diz.
Mas eu não sou drama! Sou só fama e nada mais.
Adoro subjetivar o que é naturalmente sem graça.
Se deve ser da idade? Não. É intensidade. É saudade. É coisa fácil e leve, na alma do meu paladar. Então, por obséquio, deixa eu amar.

Marco Antonio Jardim

segunda-feira, 22 de julho de 2013

35 VERÕES - Número 63


Adoro começo e meio. Fim não há. Mas tão-somente alguns fatos (não factoides) são infinitos. "O universo e a estupidez humana", diria Einstein. Todo o resto se escreve em tirinhas de papel para jogar aos ventos, tais quais as boas esperanças.
Adoro oxitocina. É o direito de amar que o corpo propõe em tramas, fotografias em matizes combinados, arte imitada de alguma cena clássica de cinema. E o mais luminoso amor. Aquele que eu ainda não consegui viver.
Creio que tudo se resume ao fato de que precisamos de amor. E de mais crepúsculos de verão.
Há um ritual ali sob o céu, um gestual sob medida, ao som de Etta James, ou The Cinematic Orchestra.
Penso sobre o silêncio, as emoções todas silenciadas.
Tenho, nesta hora, um desejo, um pedido universal. Que eu dê sentido à minha vida, que me sinta importante pra alguém, que eu tenha afeto e, outra vez, amor.
Pedidos de aniversário.
Expressões que dizem, pelo menos, metade. É minha adorável distração. Solicitar, orar pela manhã. Transgredir a ordem da mediocridade em vez de me manter distraído na morte das ideias e das práticas.
Estado isento de restrição, de não estar sujeito. De ser inteiramente livre.
E que fossem comigo as pessoas que escolho a dedo.
Não tenho filmes de família em super-8, não guardo muitas fotos, o Instagram ainda é um recurso poético tão pouco definido, mas, do que disponho em imagens, sorrio.
Trinta e cinco anos sorrindo.
Trinta e cinco anos de memórias. Como aquela de quando eu comia melancia no quintal. Ou a de falar com os gênios dos garrafões. Ou ainda a de comer miolos de pão.
Não vivi tão intensamente, não amei por longo tempo, não viajei, mordi mais do que mastiguei, mas muito mais ri que chorei. E com palavras e sonhos dou um significado maior a tudo.
É quando faço do mundo um lugar transbordante. Livre.
Está aí, no exercício da liberdade de expressão, o significado de breve.
Uma árvore de galhos recurvados, a luz do poste refletida, flores da cor do sol sobre o gramado iluminado, pólens de julho e a cena de súbito cessou.
Na casa, um velho sobrado, minha mãe ao piano, depois averiguando portas e janelas bem fechadas, mesmo todas elas sem trancas. Tudo tão lacônico quanto as minhas sensações de desconforto, temor, estranheza e a dicotomia da morte iminente.
Outra vez, esperanças.
Outra vez, crepúsculos.
O sol se perdendo do dia em vermelho, laranja e lilás. Um dos mais belos e infinitos efeitos a oeste da Terra.
Da eternidade após a morte, de vestir uma roupa nova depois que o dia amanhecer, de viver.
O reflexo da luz passando pelo vitrô produz uma subjetiva combinação na parede branca do corredor. Saí dia e noite por trinta e cinco anos.
"I love the dance floor", gritam os hedonistas no The Guardian, no Le Monde, no Herald Tribune, no New York Times, no Japão.
Ao lado, prefiro apenas calar e escutar "Clair The Lune". Ali, entre Copacabana, Leblon e a Lagoa. "Da iluminada vela na mesa velha de reunião antiga. O lugar cheira úmido, lembrando jornadas. Um dia, um dia".
Dei um meio sorriso ao tempo ao longo destes dias todos. Senti o gosto da simplicidade cheia de alma, a iguaria da viagem no tempo.
Do todo, um dos símbolos mais palpáveis da minha saudade é a minha mãe, e o piano. E o banho quente depois de ler os jornais, ou poesia.
O gosto é sempre este, de saudade, de otimismo e jazz. Todos filhos da criatividade.
Adoraria, nesta passagem, estar num Belo Horizonte, ou no são da cidade de Salvador. Entretanto, estou aqui, no porto meu da solidão. Dotado de razão suficiente pra distinguir o bom do mal crente, mas, caso não consiga, passo o tempo matando pernilongos ou pincelando sobre as unhas uma límpida camada de cor.
Este é o tempo do ócio torturante, um dos reflexos da autoadoração desmedida.
O fato é que eu e minha letra em post-it estão me bastando.
Talvez pareça uma horrível doença, esta que me obrigou a me tornar invisível. Mas, de resto, disponho a paisagem de outro modo.
Cancelo contratos noturnos, termino as noites sozinho.
Escrevo, reescrevo, e o mundo lá fora a me aguardar a hora, a palavra, o olhar.
Tudo, absolutamente tudo, depende do olhar. De como se vê sem nada ver, do quanto se tem a maravilhar.
Depois de trinta e cinco anos, eu fico com o duplo sentido e sua repercussão.
Fico sob a inspiração de Hormindo Barros, outro dos arautos do fitar: “Use primeiro os olhos. Num segundo momento, use a cabeça. Só depois use as mãos".
Meus textos, minha vida, livres assim, são minha varinha de condão. Faço pra encantar e até catequizar.
É minha política, lógica e coerente, meu cartão de presente.
Trinta e cinco verões de céu azul.
Declaro meu voto publicamente, meu aniversário de todo santo, exponho o ensaio e eis que saio a tempo da apreciação. Ou do escárnio.
De toda forma, adoro quando chego em casa seguramente no horário.
Estou aguardando já o meu instante da retirada, mas, por hora sagrada, melhor recomeçar os dias. Então, no final, tudo há de dar certo. Se ainda não deu, é porque o verão não findou.

Marco Antonio Jardim

sábado, 8 de junho de 2013

QUE DÊ CERTO - Número 62

Cometa Halley
Não tornei a ver Floh desde que ele voltou pra Alemanha. De lá, enviou-me mensagens e fotografias.
Dizia: "Querido, muito tranquilo e saudável. Lembranças a todos".
Inesperadamente, na esquina de uma alameda, a das Borboletas, eis que vejo Floh outra vez. Abraçamo-nos sob a luz do sol no calçadão.
Floh está tão bonito. Os mesmos fios de cabelo genuinamente claros, jogados de lado despretensiosamente, os olhos verdes profundos, a pele rosada de tão alva, os trajes tipicamente europeus.
Mas havia algo que o tornava mais maduro. Talvez a barba espessa, os óculos com armação estruturada, ou os pensamentos e desejos, como ele mesmo afirma.
Sentamos na parte mais alta da praça, em frente às casas antigas ainda preservadas, e conversamos por algumas horas.
Ele me falou sobre Hamburgo e Berlim, sobre a festa de São Nicolau, o Parque das Águas, a Lapinha, sobre minha irmã.
Eu só tinha a falar do passado e do presente. Nada mais.
Levei-o para ver as fotografias de Vinícius e depois nos despedimos.
Talvez eu devesse tê-lo chamado à minha casa para um vinho, um brinde, um conto, mas não o fiz.
A gente sempre deseja que alguma coisa dê certo. O novo círculo de amigos, as grandes reviravoltas da vida, os compromissos com o tempo, algum casamento, outros filhos, as aventuras, as coisas seguras.
Os planos do ano, da vida, do além. Aquela pessoa querida, reverenciada.
O amor, a extremidade do amor.
O gostar muito e o venerar de fato atestado. Como bem fazem os pinguins.
A gente gosta, ou naufraga.
A gente sobrevive à morte, ou se morre de alma.
Portanto, desejo que dê certo. Os braços que fazem um país, a dona democracia, a afamada qualidade de vida, o estilo bem viver, a real dignidade de ser.
Que dê certo o gosto do finito ao infinito.
Do passageiro ao mesmo do eterno, do livre e do estritamente necessário.
Que dê certo o cubo mágico. E o chá de pêssego gelado.
Tudo há de dar certo, desejam-me. "A visão acaba, a audição acaba, o sexo acaba, o poder acaba, mas a fome continua".
Que dê certo, sem poeira, o livro de Luís Fernando Veríssimo na cabeceira. E os outros projetos possíveis.
Que recebamos as cartas de gentes supercompetentes, as pílulas preparadas na farmácia da vida, as fórmulas consistentes.
Que preguem os botões, que sirvam os agasalhos, e os abraços, e que os bons jornais sejam postos embaixo dos braços.
Que sejam lidas as páginas do Die Fackel no trem, no bonde, na caminhada a esmo. As letras controversas do poeta Karl Kraus. "Não tinha a mínima paciência com as pessoas que, no bonde, no trem ou na mesa do café, davam início a diálogos inanes sobre o tempo".
O resto é o que faz parte de ser humano. Por isso mesmo, que deem certo até assuntos requentados. E aforismos. E caras de paisagem.
Só não há lugar para lugares-comuns, clichês, ideias prontas ou opiniões fáceis.
Por isso mesmo que deem certo os botecos de minha rua. As mulheres da vida, os jovens cafajestes, a polícia e o cheiro de gordura.
E o mar. Ah, o mar. A manhãzinha ali se esgueirando pelos escritos de Virginia Woolf, pela areia e pelo humor de Mark Twain. "Um mínimo de som para um máximo de sentido", escreveu.
Pois que se adorem uma coisa e outra. Coisa nenhuma é que não é permitido desejar.
Caso haja hesitação, que se tome um copo d'água natural.
Que se veja o retrato desvanecido de Liu, vestida aos moldes dos anos 50, com enormes óculos em degradê, vestido de bolinhas, fazendo crochê na praça do orégano em Miami. Ou nylon, malha, algodão e tactel.
Que se experimente, que se esteja a par e se tenha noção.
Que se vá quando o sol ainda não foi. O sol a gente mesmo inventa, tais quais as canções de amor.
Que deem certo estes livros de receitas. Com capa de couro e cheiro de mogno fresco. Com gosto de lombo suíno grelhado ao molho de mel. Arroz com aroma de hortelã.
Bordão, bom dia, bonança.
Que se cantem "Caramel" por si mesmos.
E que não tenham receio de olhar nos olhos. Como faz meu gato persa, O Branco, que me fita e parece interrogar: "Por que chamam Guerra Mundial, se nem todo mundo participa?".
Sejam distraídos, queridos. Menos graves, menos rígidos. Voltem às origens.
Que deem certo os números. Eles também servem pra alguma coisa. Até para versos.
Há de se perceber poesia em qualquer lugar, mesmo sob os umbrais da porta. Basta mudar o jeito de olhar.
Voltem atrás, então.
Sejam francos, expostos, compartilhados, e até patenteadas sejam suas vidas públicas.
Para se ter um estilo absolutamente pessoal é só virarem os olhos ao céu, ao cosmos.
Que dê certo, por fim, esta imensa língua divina que fala a verdade com significados tão pouco iguais e tão insistentemente brilhantes.
Eu observo as estrelas e torço, apoio, espero, desejo ardentemente que dê certo.
Se não for assim, que eu me vá embora com o cometa.

Marco Antonio Jardim

terça-feira, 14 de maio de 2013

AS GENTES TODAS - Número 61

Fotografia de Vinícius Gil (Purki)

Se tem algo que inventaram que é, de todo, instigante, intenso e emocionante, é gente.
"Gente olha pro céu", cantou Caetano.
A gente daquela terra do lado de lá, cantou a pedra do dicionário.
"Você é cômico", desdenhou Diego da minha filosofia humanitária.
"O que sou é mítico, quase um ícone", respondi atrevido.
Sou um barato, ainda que, por vezes, seja também um chato.
"Sou um moderno intelectual que vai ser rememorado", autoironizei minha chatice lúcida. "Megalomaníaco!", disse em tom mais alto.
"Sou um otimista, com autoestima na medida", tentei amenizar.
"Tomara, então, que você seja o que, afinal, pensa ser", concordou com certo sarcasmo.
"Eu não penso ser, Diego. Eu sou", respondi, mantendo a serenidade.
"Oui, oui", riu.
"Je peux vos aider à être comme moi", finalizei à francesa.
Gente é assim, quer saber o um, o lugar, e qual rio deságua no mar.
Escrevi para Manno num pedaço de papel, em meio aos seus rugidos pernambucanos e as batidas do esqueleto negro baiano, e só não declamei porque havia tanta gente, e tão perto de mim.
Dos escritos, eu dizia assim...
No todo que escuto e reverbera, no todo que se faz eco, no todo que há um.
No único que diz veementemente aos ventos todos que circulam aos todos, sim, há um.
Nos números que se contam em palavras tão incontáveis quanto as estrelas se perguntam quantas são, há o tamanho do universo em expansão.
O um.
Nas reticências de qualquer pensamento difundido, defendido, vamos todos nós, e os outros, gentes, os que se resumem num.
Do concebido algo pobre do expressado, cor de cobre também se rima rico o tal do ziriguidum. Manno, gente é muito bom. Só com gente, e sons-imagens, pra vida ser inteira.
Gente, às vezes, é mais de um plural. Tal qual Pessoa, "nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo".
E ainda que a vida minha se divida entre o cômodo dos dias e a gaveta das utopias, quero me fazer presente, franco, sem restrições (e até ser venerado, por que não?).
Quero Bárbara um dia desses, e ser disposto num porta-retrato de alcova ao piano-adágio da expressão solitária de Anderson.
Um dia desses, quero ser fotografado divindade por Purki. Com o rosto rasgado, dilacerado, delgado, apaixonado em verbo de larga escala.
Quero um nu assinado, descolorido a lápis por Alex num quarto de hotel desativado.
Quero Di. Na parede do meu próprio quarto.
Eu, gente de coração vagabundo, acautelando o mundo em mim.
Qual gente, em qualquer idade, não quereria ser um emblema adesivado, um Vitor Hugo abravanado na janela do museu-moldura da verdade, publicado na história?
Quem não quereria receber uma ligação de alguém que há tempos não vê, só pra escutar: "De repente, saudade"?
Gente assim pintaria até os cabelos e deixaria a barba por fazer. Faria qualquer reverência de sagração. Um autoreflexo. Um não.
Gente quer comer. Matheus, o rotulado, letrado, profeta profano, quer comer e beijar em público.
Satisfação. Meu gato persa quer comer. E eu quero ser comido, cozido vivo, por Nara, Marina, Jamille, Ellinha, Bethânia, Selma, Renata, Cecília, Leilinha, Vandet, Suzana, Luiza, Marcela e Didi.
Gente que brilha por aqui. Bem ao lado da Tenda, no Beco, de pernas cruzadas, pedindo um isqueiro que acenda.
Você precisa andar com a gente, Vitor.
Aqui bem pode ser a melhor cidade da América do Sul.
O Xamps Elisées em véspera de feriado.
A alta madrugada, o meu mirante autodenominado.
Se oriente, rapaz. Sua barba correta, seu agasalho escuro, seu olhar semipuxado, tudo tão bem pensado como o sopro do seu riso de cigarro.
Passam uns, ficam outros.
Fica um tino de ansiedade não comedida.
No afã desta incoerência, passa, ao seu lado, a vida, como os hebreus atravessando o Jordão.
Passa a madrugada e nem um olhar seu encontrando, do meu, um vão.
Num impulso irrefletido, brusco e inesperado, eu o segui. Em noite de uma estrela só, o marcador sinalizando treze graus.
Gente só quer ser feliz, Vitor.
Depois de meio-dia, em dia agora raro de sol, Iguarias.
À minha frente, fios de cabelo cortados sem afilada simetria.
Vontade que havia de tatear. Pelos espessos no rosto delgado, pelo mundo, pela porta afora, pelo canto do olhar.
Vi, do cristalino, fitado em mim, gente, estudando, talvez contemplando.
Daí chegou Macário, e Tina, e Saldanha, e todo o gesto-poema-inteiro de Luiza outra vez.
Toda aquela gente pensando, dançando, lavando roupa, batendo o Tambores e amassando o pão.
Sorri, vertendo meu melhor encanto. Indaguei se era alguém especial um tanto e, de novo, sorri.
E, se não conservei imagens de outrora, é que fico com esta hora de idas, vindas, da realidade de agora, dos escritos sinais em números numa nota de dois reais.
Meu mais novo talismã guardado no bolso.
E segui, caminhando a esmo.
É assim mesmo, gente quer sempre prosseguir. Em meio à turba cantando em coro, procurando aquela entidade.
Sem oscilar, eu vi.
Gal. De 74 e dos anos 90.
Tínhamos planos, eu e Gal.
Na mesma afluência, ela também me viu. Buscamo-nos. Eu, num abrigo púrpura. Ela, acetinando. E fomos.
Porque só sei viver mesmo se for assim, intenso, em noite que não tem fim.
Roupa azul espalhada no chão, corpo inclinado, habituado em demasia ao outro, aberto, plano como a palma da mão irreprimível. Ou da língua em francês, com gosto de Amarula, crível, sussurrando "ma langue dans votre tatouage, mon petit".
Uma sardanisca correndo próxima ao ventre frio. E o líquido seminal rente ao meu peito se reproduziu.
Ah, aquela luz no cio da manhã invadindo.
Gente, como usurpou o meu tempo aquela luz!
"Baby, why you look so sad?", cantou baixinho Cibelle, ou teria sido Ayade?
"Porque vim-me embora", respondi. Vesti meu agasalho com marca de cigarro uma última vez. Porque uma hora a gente tem mesmo que sair, despedir.
"Um dia a gente pega a mala. Dia, caminho, sol, ânimo, medo. Na noite seguinte, risco, faísca, estrada, o nada. O sol, o sol, o sol". Ofuscando a vida dos outros, levando-a embora feito onda salgada de mar.
Faz tempo que o dia não se rasgava assim.
Estamos em maio e faz tempo que não saio de mim.
Esse espetáculo das ruas. Das gentes todas que querem luzir.
Depois que inventaram o tempo e todas estas pessoas do mundo para o passar das horas, só mesmo silêncio, segredo.
Minha diáspora agora é solidão, sério! E lá estava eu me abraçando.
Gente, quanto doce mistério.

M. A. J.

domingo, 21 de abril de 2013

CASTELOS DE AREIA - Número 60


Esse mundo não é meu, nem seu, mas um dia hei de construir castelos nele.
Marcus ligou, tirando-me dos devaneios do meio-dia em que, sentado no sofá da ante-sala, sob a luz morta que vinha da janela do meu quarto e refletia na mesinha empoeirada, eu lia sobre a Holanda.
Marcus pediu urgência no envio do modem. Ele viajaria às 21h30 para Salvador e, de lá, para Nova York.
Acreditei que ele não esqueceria de repetir o pedido, mas partiu sem levar a peça. Deixou-a guardada numa gaveta, sob papéis.
Liguei e os telefones, inexplicavelmente, deixaram de funcionar. Consegui um número de uma vizinha, duas casas abaixo da minha, e passei a mensagem.
Notei que minha rua estava silenciosa nesse dia de frio cortante. Até aguardei na porta, fumando um cigarro, já que era sábado.
Marcus não veio.
A porta, então, bateu. Minhas chaves ficaram dentro. Os telefones continuavam sem funcionar. Fui atrás de chaveiros ali pela Gerson Sales. Encontrei um que precisaria de transporte. Ele demorou a descer as escadas do apartamento mal projetado.
O tempo passava, mas eu estava estranhamente calmo. Alheio, talvez.
Conheço bem esta sensação de defesa. Algo estava pra acontecer.
Segui numa outra direção, num cruzamento entre uma feira livre e pontos comerciais.
Num átimo de segundo, um motociclista em alta velocidade se chocou com o carro.
"O homem é o homem e a sua circunstância", me veio à mente em flash. Pensei em Deus.
Deus? Meus olhos fecharam. Não sei de onde surgiram tantas pessoas. Aquela rua parecia escura e abandonada, minutos antes. Os burburinhos todos estavam me incomodando. As luzes também.
Eu só conseguia olhar o todo, a dinâmica da vida e sua concepção. E meu corpo só sentia os permanentes processos de mudança. Um por um.
Mesmo no termo da existência, sou um poeta à moda antiga. Com amor à vida, ainda por cima.
"O amor que está vivo nunca está pronto. O amor que está vivo está sempre em movimento". Onde mesmo li este trecho? Eu forçava algum gesto, como se algo me impelisse para o que me afigura belo e grandioso.
Entrecortadas, pessoas e cenas iam e vinham, feito sombras. A noite de aniversário de Diego; sons de uma garrafa de vinho à deriva no bagageiro; Marcelo interpelando transeuntes numa rodoviária em madrugada plena; um bilhetinho dirigido a Leo, o companheiro de Cecye, e sua expressão, sua silhueta inteira à meia-luz; as incitantes conversas com Yves e Manú; as vitórias de minha mãe; e o intimismo da casa de Rachel.
Ah, como aqueles cômodos me fazem recordar Jhonathan. Lucas chorando. Di chorando. Trechos de voz de Janelle. Palavras esparsas, como sienista. Uma vontade inexplicável de estar numa piscina, mergulhado por inteiro, batendo cinquenta metros na água azul.
De novo, a voz de Jhon ao telefone dizendo "Ei, rapaz!". Uma inscrição de camiseta: "às vezes eu tento ser normal". O gato mesclado que deitou ao meu lado e o meu filhote J., mordiscando meu queixo, pedindo carinho. E Lana, numa esquina.
Nós nos parecemos. Sempre estamos com um livro embaixo do braço. Por hora, Ernest Hemingway comigo e alguma coisa de Pessoa com Lana.
Lembro de termos ido ao Boliviano. Tomamos capuccino no balcão. Adoro balcões de bares e cafés.
Por vezes, no entanto, sentamos em mesinhas redondas e passamos o tempo a rir de nós mesmos. Por três vezes nos encontramos lá num mesmo dia. Ela não parece se importar quando chegam amigos ou conhecidos e roubam minha atenção.
Às vezes, vou sentar-me num banco acolchoado, ao fundo do salão de piso em mosaico antigo, e fico a trocar ideias e tempo com a enteada do meu irmão e sua animada filha, Renata.
Ou passeio pelas gôndolas de doces com Gau e Cleiton, que sempre me observam com olhares inquiridores.
Outra vezes, vou para um canto mais discreto, à meia-luz, com minha irmã, seu belo companheiro barbado, e outros amigos.
Sempre bebemos Bourbon com papaya, preparando-nos para alguma festa.
E lá está Lana, no balcão do Boliviano, com seu livro aberto.
Engraçado que, em alguns momentos, eu via, ao seu lado, um menino. Parecia um pequeno jornaleiro, vestido com boina xadrez, suspensórios, camisa muito polida, posta por dentro da bermuda curta, e sapatinhos lustrados da mesma cor das meias.
Sempre que eu aparentava cansaço ou tristeza, lá vinha o menino, afastando-se de Lana, a me cumprimentar.
Eu o vi me observando ali, no cruzamento. Era um menino de rosto magro, mas afilado, impossível de esquecer.
Eu o vi também passando por uma borboleta de ônibus e um velho o examinava.
Vi meu passado completo e os reflexos de um futuro impreciso.
Vi Caio falando sem parar. Suas frases volvendo repetidas. "Sim, eu acredito. Sim, eu acredito. Sim, eu acredito".
Havia gosto de sangue em minha boca. E de Cosmopolitan.
Alguém, que não lembro, gritava censuras injuriosas ao motociclista. Era um conhecido. Não recordo mesmo quem foi, mas sussurrou: "Você é a única companhia agradável para esta noite. Por favor, fique!".
Senti minhas costas marcadas, doídas. Meu irmão veio ao meu encontro. Eu estava no intermédio entre o céu e o inferno. Eu e minhas loucuras sãs, no limbo, decidindo meu destino.
Com os olhos ainda fechados, nestes segundos intermináveis, vi uma placa de mármore numa porta descascada. "Docere, delectare, movere", estava escrito em letra cursiva.
Na iminência do tempo que se encerrava, respirei.
Eu havia escutado a batida. Olhei para o lado inverso e vi o corpo imóvel do motociclista no chão. Saí do carro e corri em sua direção. Peguei em seu ombro e perguntei se estava bem. O mesmo conhecido o chamava de louco. "A culpa é minha", respondeu o homem. Suspirei, serenado. "Aqui está minha vida - esta areia - tão clara, com desenhos de mudar dedicados ao vento".
O chaveiro, enfim, abriu a porta.
Um dia ainda hei de fazer castelos.

M.A.J.