quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A PÍLULA DE MRS. DALLOWAY - Número 52

Ilustração de Julien Pacaud

Tenho já a primeira frase, a primeira expressão: "Mrs. Dalloway disse, ela mesma, que iria comprar as flores". Talvez esteja estalando língua distinta da minha, mas parece refletir certa proximidade com o mundo. Escutar outras vozes, em outros idiomas, outros gemidos mais fundos. Ter também outros casos. Em todo caso, aconteça o que acontecer, o quanto antes ela quer ser. Neste conjunto de espaços, corpos e seres habitados, que não é mais o mesmo, que há pouco tempo mudou, quer existir. Ter as imperfeições apontadas por si mesma, não por olhos alheios. Não quer união legítima, constituída e simplificada por um elo de metal dourado. Quer amor em excesso. Não quer nenhum destino deslumbrante para celebrações privadas. Este é o sonho de Marcela, não dela. Nada, a ela, é pouco espaço. Ainda que passe o passo de um para outro, ela quer a universalidade, a totalidade de coisas e pessoas. "Então, num fim de tarde qualquer, poderíamos tomar café", convidou Lara, uma amiga. Ela não quer. Sua vontade é fechar alçapão, cortar luz e ar e anular a irritante voz da velha vizinha e seu desventurado gato. Que se afastem os que não partilham dessa filosofia. Vazia é a que não se sabe o rosto, nem cor de pele, mas se agasta, deplorável, com o berro de suas palavras. Ela quer é que se complete, que se transborde sua voz escrita. No fundo quer é momento, espaço-tempo, pessoas. Prefere a sineta do moço dos picolés. "Coco, goiaba e creme! Tangerina, tapioca e doce de leite!", grita sempre, entre pilhérias e momices. A doce festeira Diane chegou a descrevê-la, certa vez, turvando a visão: "Você encanta". Ledo engano. A verdade é que ela se dobra sobre si mesma, servindo tão-somente de imitação da vida. Como mariposas e libélulas que por agora vêm surgidas. Num instante é nuvem. Noutro é praga e partida. Ela endossa que vai encher os bolsos de pedra, mergulhar o leito de um rio e morrer aos 40. Não cabe mais em si. Deixa-se romper. Cai em si só chuva fina no feitio de confissão. Ela? Solidão. Poesia que mapeia chão e mundo, alívio, triunfo, revolução. Alimenta a alma com alpiste, num jeito explosivo e esquivo de quem, no fundo, nada quer. Ela é a vida inteira em um único dia. Vai a festas para abafar o silêncio, escreve a totalidade das coisas, vai de mulheres e homens, pega pelas mãos crianças e velhos, doendo solidão insistente. "Quem dera pudesse a dor que entristece fazer compreender os fracos de alma, sem paz e sem calma", cantou-lhe Ângela. Sua irmã mais velha oferece ameixas frescas e sabonete de cacau no disfarce de refrescar sua alma. Sua mãe prepara o almoço de domingo. Seu sobrinho nota que ela escuta canções de outrora, mostra-lhe um pássaro morto e pergunta: "O que acontece depois que se morre?". "Retornamos ao lugar de onde viemos", responde ela, alheia. Alguns homens insistem no ato ou efeito de parecerem próximos. Bruno, de longe, vem vê-la. Flávio persevera uma visita íntima. Seu primo Tarlyson a tem por incomum. Um homenzinho giboso a convida para o teatro. Um outro, quase em torcicolo, a devora com os olhos. Um terceiro, anônimo, num gestual lascivo, a aguarda numa esquina escura. Nem mesmo os mais moços e nobres lhe parecem apetecíveis em formosura, como aquele enfermeiro sisudo de todas as noites na estação. "Sua vida é tão banal", aparenta ele, julgando-a na expressão. Até de quem ela almeja apregoar o nome nos classificados ou nos locais públicos, não se faz justo, antes comprometedor. Ela só lê, dos pequenos aos maiores gestos, interpretando os ingênuos pensamentos dos homens. E, observe, seu encantamento de mundo só se faz maior assim. Todos os seus sentidos ali na coluna vertebral meio arqueada, anunciados e falidos, onde se lê, sob ironia mordaz, "Visionary. A tributy to creativity". Ela é como o sol que cobra caminhada rápida depois da escuridão. O mar brando, de maré baixa, que exige saudade do sertão. É, outra vez, chuva fina que dança, reza, moe e lamenta antes de cair. É estrela que só se alcança quando sonham com ela. É pôr-do-sol só para quem sabe ver. É vento para quem vira sua esquina. Para Núbia é cheiro de mato, para ela é tão pequenina que - se cresce - se esquece. É ar fresco arrepiado em corpo molhado. Essência, porque pouco se pensa. Desses sentidos, Núbia, nada ela é porque não é de graça. É simples, comum, mas escrava da culpa moral e do tempo porque, ainda por cima, tem de enfrentar as horas prestando contas pelo ponteiro a "um mundo atento a não perdoar". Ela se despede, então, num exaustivo fluxo de consciência, das pessoas que mais amara na vida. Escreve, antes, duas cartas. Na primeira, conta que sente não conseguir passar por novos tempos difíceis. E que não quer revivê-los. Na outra, nem sequer consegue escrever ou ler. Livre do peso das obrigações e num desfrute pessoal de além carne, já tenho, dedicada a ela, a última frase, a última expressão: Mrs. Dalloway sou eu.


Marco Antonio J. Melo

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

PÍLULA PELO RECOMEÇO - Número 51

Tela impressionista de Van Gogh
No toque da alvorada, depois da perda das horas, acordei de sonho luminoso. Um reencontro com meu irmão Breno, na Chapada. Avivei o texto de sua voz em pensamento, enquanto a luz invadia o quarto. Olhei-me no espelho e vi constelação em minhas costas. Muito próxima do Polo Sul Celeste. Despertei e, sob neblina, eu não estava só. Mulheres campesinas me cercavam, segurando balaios de palha, derramando pétalas em mim. Senti o cheiro, afundando no chão. Cheiro também de pão. Eu vestia o traje menos amarrotado. Vestia minha vida simples. Ainda sonolento, caminhei sob o eco da voz de uma ninfa grega consumida por amor a Narciso. De tudo, ele lhe deixou a voz. "Confesso que eu gostaria que você não fosse o que é", disse pelo fim. Passaram por mim os últimos boêmios e os primeiros operários. Tirei da bolsa o maço de cigarros que não trago mais, joguei ao chão, juntamente com a resposta de não lembro quem, de cor marrom. "Meus olhos marejaram, preciso digerir o que li", divagou o homem sem rosto pelo fim. Tocava James Newton Howard, temas de filmes. Passava o tempo por meu rosto, meus jardins, minha cidade de interior. Refletia meu espírito margeado pela sombra da cerca do Poço Escuro. O clima estava impreciso, entre o frio e o ameno. Sons de folhas secas de milho ao vento. Segui suave, vivo após alguma morte, sem temer que me enxergassem. Naquela rua, no alto de um dos novos prédios, tem uma imensa estátua de anjo. Normalmente brilha ao sol. Sentei num banco da Virgílio Ferraz, por onde, submerso, passa o Rio Verruga, paisagem sem definição. Algum tempo eu tinha, então abri o diário para rever as impressões de Odilon. "Tenho saudade da Cíntia. Às vezes a vejo e a acho linda. Parece pessoa que não vou mais ver", lembrou pelo fim. Ri sozinho, onde meus pés fincaram alma. É que recordei a visita das minhas tias. Sempre carrego a sensação de que será a última vez. É que evoquei o abraço de Kenio. Onde me perco e me acho. Onde para o tempo no mar do coração. Onde me volto às origens, fora de quartos e salas, refugiado em tempo real. É a construção social da realidade, diriam Peter e Thommas pelo fim. Ou falariam de amor. E por discorrer em candura, Adla me procurou. Pomos à vista nosso perdão. A neblina ainda deixava o horizonte um tanto indefinido. Levantei do banco e segui a manhã do meu novo caminho. Passei em frente à Câmara. Gosto de observar aquele velho casarão restaurado, amarelo, a fachada secular, os passos de assombração. Desci pela esquina do hotel desativado, no beco do Candelabro. "Qual de vocês não acha belo quando ele desce, quando deixa tudo translúcido?", ouvi alguém sussurrar pelo fim da lojinha de artesanato. Deixei-me guiar pela avenida, entre estabelecimentos de roupa e de frutos do mar, por cima de folhas caídas, até achar outra praça. Numa das mãos, eu carregava um livro de Isabel Allende, e noutra, uma bebida gelada. Percorrer o caminho assim é como um convescote de manhã cedo. É a tradução de meu universo em algumas boas palavras, a essência do meu entendimento de mundo. Viver manhã assim tem certo sabor. De beijo leve, como o que Duh desejou dar. "I Think, I Love", eu escutava, pelo fim. Pensei que, talvez, Guilherme pudesse estar na sacada da janela. E estava. Semblante grave, analista. Horas mais tarde o vi tão absorto, dormindo no sofá de Ana. Quando acordou eu queria ter dito "Olá, estranho". Pelo fim da voz calada, eu não disse. O céu, já a esta hora, não se achava nublado. Há tempos que não ficava assim. Subi as escadas. Ana que me recebeu. Numa parede da sala, uma réplica impressionista. A cor da luz ali anunciava o passar do meio dia. Raquel me ofereceu uma taça de Cabernet Sauvignon rosado. Na copa, falava-se do Rio. Sérgio lembrou o mármore de Carrara, as construções históricas, o bonde, o burburinho do Santa Teresa, o Montmartre carioca. Renata, de Minas, ensaiou um sotaque peculiar. "Vou te escrever uma lista para você sentir", disse Raquel, sorrindo pelo fim do corredor, apertando os olhos claros. Relembrei o quanto é delicado viver, de uma forma ou de outra, em cada esquina, em cada rua estreita. Luc anunciou o pôr-do-sol. Fomos todos à sacada. Tinha um cheiro de magnólia no ar. Cheiro de nova estação. Já era quase noite, quase frio. Tempos depois, num quarto de hotel, ouvíamos um fonograma e Di confiava singelas histórias. Leandro, o de olhos cor de mel, abraçou-me, deu um beijo em meu rosto e se despediu. "Cuide-se", falou, pelo fim, como um clarão. Voltei à minha casa, ao meu quarto, ao meu tempo de então. No toque do ocaso, entreguei-me de novo ao sono. "Devagar a gente se acostuma a tudo", quase ouvi de Camus, pelo fim da impressão do dia. Afinal, de onde mais vem inspiração?
Marco Antonio Jardim

domingo, 15 de julho de 2012

PÍLULA DE FIM DE CENA - Número 50

Pintura de Bruce Holwerda

Perdi uma poesia escrita num papel pautado. Desmarquei uma reunião de decoração e arte. Deixei de ser no mundo a parte da mudança que eu quis ver do mundo. Não fui ao velório de Miguel. O bom e jovem homem Miguel. Perdi uma cena. E a orquídea abrindo em flor. Não sei mais se a vida segue o curso da criação eterna à morte de todas as afeições, da vida interior às relações de amor. Não sei. Não fui ao sacramento de Bianca e Danilo. Não por serem efebos, mas por eu mesmo ainda não ter acreditado no estado inspirado de paixão permanente. Descumpri o prazo do projeto de alto valor de densidade. O projeto da verdade. Trocando em miúdos, ainda uso os mesmos sapatos. Vivo imprimindo listas de pautas atrasadas. O que será que será, então? Deve ser meu cansado querer um jeito novo de reinvenção. Daí escrevi um texto sobre, sei lá, aquecimento global (e o que se poderia instituir como mudança individual). Mas todo mundo já escreveu todas as letras. Tenho, pois, travado essa luta cotidiana com palavras e inspiração. Luta vã, diria Drummond. Recolho-me ao anonimato. Até os suecos do jj o fazem! E os carecas ingleses também. E Ana Luisa quando na província argentina. De toda forma, eles são mais humanistas e sonhadores do que eu. As minhas ideias têm nascido mortas. E por mais que eu anseie por novas verdades, as eternas já estão aí. O celular não para de tocar. Deixei de atender. Deixei de marcar, orientar e assessorar entrevistas. Calei os verbos revisados. Só sento quieto numa cadeira se for para minúcias. Para coisas miúdas. Ainda que, na química do tempo e da alma, nada é tão infalível assim. Nem os diamantes. Chamem de autoironia, falsa modéstia ou o nome que quiserem dar. "A ordem das árvores não altera os passarinhos", cantou Tulipa. Não entendo mais a parte técnica das inscrições. Minha figura tardia está esculpida tão-somente no panteão dos insones febris. Meu epitáfio: breve elogio a um morto-vivo. Visto o costume, ponho o chapéu e caminho sob o guarda-chuva escuro feito fotografia esmaecida. Não fui à exposição das histórias que contam histórias das várzeas. Está tudo apagado em mim, tudo ardendo, e há suor nas têmporas. Se há crise, perco a cor, sinto o ar gélido passando pela espinha, soldo o sangue e as perturbações. Tudo parece assim...uniforme. Até a luz do sol. E as impressões de Túlio ao fim do texto. Fim de cena. "Dizem", foi como ele designou meu egoísmo cotidiano. Um expiro, eis o que sou. Claro que acredito que há amor em algum lugar, mas nada que valha uma manchete, um vestido de noiva. O tráfego da peça que preciso julgar é o mesmo da faculdade de pensar. E até deste direito pouco sei exercer. Na adversidade, até que me ponho à prova, mas desfaço as ligações. Enquanto isso, na justiça da sala, a celebridade bebe um Pinot Grigio. E eu fico a contar o tempo em lapsos de memória. Delongas, adiamentos, prazos estourados. Primeiro turno, segundo turno, descuidos, faltas, erros. Já se faz noite e a enfadonha agenda da vida não se encerrou. Está sentindo? É o cheiro da manteiga de karité da África nos meus pés e aqueles mesmos sapatos. Salivei a boca seca, escutei Joni Mitchell, mas, quando olhei o espaço sideral até onde minhas vistas conseguiram, lembrei outra vez da minha pequenez. Lá vem o vice-prefeito, o secretário global, a especialista em consciência, o marketing da Coca-Cola. Tem sempre gente importante querendo ir e vir. Esquivei-me deles pelas sombras do corredor. Meu nome está em digressão no expediente do folder. Divaguei, errante, e vou desmontar as mesas. É o papel que me cabe. Oito parafusos e a falta de um instante. Olhe que nem apontei o dedo para as alterações da arte. Picasso no Met, meço o espaço. Outro dos meus pobres afazeres. Quatro metros, quase passos. Descartei o mapa porque não há tempo hábil. O que há é erupção no Eyjafjallajokull, aumento das marés do mar Adriático e o fim de Veneza. A inexorável transformação explorando as angústias do tempo de então. Parece até poética, se não fosse ingênua essa política de vida, essa teologia da modernização. Cumprimentei jornalistas em horário de almoço. Lobby. Mato formigas enquanto eles enviam e-mails. Convenci o fotógrafo na escolha do ângulo errado. O agudo, o côncavo e o conjugado. Reuni a equipe no meio-fio, evitando amenidades. Arestas, cantos, esquinas, cidades. A rede está entrando em pane. Descartei os colunistas, não atendi a paisagista, não contei fábulas. Não fiz amém a ninguém. Não há condescendência nem solidariedade. Nada de melhor na vida é de graça. O tempo, meu bem, só passa. Desci as escadas carregando caixas, encaixotando Helenas, degrau por degrau, manual por manual. Estou queimando em mim, fazendo tudo de novo todo dia, do jeito moroso de sempre. Até chorei num canto, cansado, mas sou como Kafka, literatura fugidia. Um feito fake por dia, desviado do destino. Agora mesmo sou todo dor, um fingidor. E tenho febre. Do mar ou do amor? A gente é feito mesmo pra acabar.

Marco Antonio Jardim

sexta-feira, 29 de junho de 2012

PÍLULA A CAIO F. - Número 49

Escultura de Antony Gormley

Tomara que a cidade possa ver a cara alegre, a cor do som distinta no gosto do prazer. Parecia prévia de festejo, Caio. Eram, no entanto, lábios secos, seca no coração de outros, racionamento no regime de Assad. Dizem que é preciso que se suporte lagartas antes de conhecer borboletas. É como uma solenidade colorida, efeito da cachaça jararaca, cheia do chocalho da ébria vida. Depois de alguns copos, outras mulheres e um mesmo desejo fêmeo da vulva ao útero, as melhores histórias surgem aqui e ali, como uma infinidade de possibilidades, como nas esculturas de Antony Gormley. Vi culminância na arte ruge, Caio. Auge na órbita do corpo do garoto de programa. Alterego. Mergulho cultural e estético, afeto sexual. Muito depois da vigília destes satélites artificiais, eu vi um arco-irís. Celeste, de alianças, sem chuva, feito bandeira num circuito da cara, coragem e altivez. Um espectro contínuo que brilhou vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, violeta e anil. Uma parada que não viu desordem, só se viu feliz, com gentes, gêneros, orientações, idades, verdades. Gente alegre, Caio. E todo o sentido da continuidade. Da mulher que cortou um broto alheio para o próprio jardim ao tenente valente que se vestiu com o short carmim. Das poc poc às barbies do Chuí. Das caminhoneiras às femininas. Do (fe)menino bem mais porto alegre que seguro. Dos curiosos aos que usavam brincos rosa-choque escuro. Das duas faces de Eva e "um certo sorriso de quem nada quer", você riu. Do senhorinho esguio subindo a ladeira com seu paletó largo e seu tempo sem pressa ao garoto de sandálias gastas empurrando a galinhota de verduras. O que vi, Caio, foi histórico escapismo, encantamento e ilusão. Vi uma prece ao infinito. Das estradas olhei aos lados por costume e por gosto. As estradas do entreposto do passado, sob sol e vento. Da montação à celebração, foi o que vi. Noutro tempo, via meu pai. Guardava filmes na geladeira. Eu, por vez, colecionava os carretéis. No teto da cozinha sem forro, um imenso montículo de cupim que descia das telhas até onde eu pudesse alcançar com as mãos. Nas tardes de sábado, como esta de agora, cheias de sol, meu pai levava melancia e jaca ao quintal para reunir a família. A nossa rua não tinha tanto comércio e a casa era caiada de amarelo, gasta pelo tempo. Ficava vazia também aos domingos, sem veneração. Ah, Caio, eram estes os velhos e bons sonhos. Nem todos se concretizaram, mas foi bom tê-los. O tempo é este processo profundo de adaptação, descoberta e sobrevivência, sem miopias, sem vassalagens. Morrer, hoje, não basta. Morrer é que é o mal-estar do século. Talvez por isso não tenha me despedido de Elvira. Sei que vou reencontrar sua discrição. Não é conformismo nem princípio de incertezas. Não é nem sequer o pensar em me pensar demais, Caio. É só o imaginar do sentido e do fazer da vida. Pois quando me vi embaixo daquele gigantesco tecido multicor, daquele estandarte simbólico, fiquei com vontade de gritar o que sou ou de chorar em despedida, como fez Clarinha. Só sorri e pensei no quanto as coisas da vida parecem fulgazes, fantásticas e inatingíveis. Eu sou mesmo um clichê ambulante, Caio. Um heure bleu, um azul intenso da França ou, por Alain Bergala, sou o aprendizado do amor incondicional. Em outras vezes sou só impressão. Vez em quando toco pandeiro como Rayza. Toco violão como Massumi, Duh ou João. Fotografo como Purki. Ou desenho rabiscos iguais aos de Xande. Ou me faço jovem ator, como Dani. Geralmente, Caio, escrevo. Cartas. Ou escrevo para velhos, como gritou Sônia nos mesmos sonhos adiados. "Quando escrevo pra você, é como se escrevesse pra mim mesmo", você costuma dizer. Em algumas horas sigo os dez mandamentos desse espírito livre, em outras envelheço. Tenho um pensamento móvel por demais ou o que tenho é culpa. Peço sua desculpa, Caio. Peço pra ver a remissão da minha dívida. Faço agora minha romaria bretã, no afã de dizer que meus dias não eram assim. "E quando passarem a limpo, façam a festa por mim", completa você. Onde fui acostumar meu olhar, hein? Naqueles dois? Marejei os olhos ali, no jogo de cena, nas memórias, na poesia, no cinema de Almodóvar, na música da minha cara lavada, na repartição, para pedir perdão por minha língua incompreensível, por minha letra morta. Eu estava, sim, "num deserto de almas também desertas". E vendo Raul ou Saul, lembrei de Jhon. A calça jeans meio caída, o jeito de cruzar as pernas, a cabeça um tanto baixa, o olhar apertado, oriental, o sorriso inesperado, a fala mansa, mineira, a profunda beleza de pele branca, o abraço eterno e o jeito de pedir um cigarro. Lindo, sempre assim, feito luz natural. Não foi um dia de calma o que vi, Caio. Mas dormi nu, como um arco-íris na cartola. E acordei me perguntando se sou, de fato, imortal.

Marco Antonio J. Melo

quarta-feira, 13 de junho de 2012

PÍLULA DO MAR SEM FIM - Número 48

Tela de Kathryn Lynch

Domingo de decisão, considerando, sobretudo, que é dia de desorientação, que vem depois de outrora, rumando para inumerável infinito. Talvez dilema, embaraçosa situação, como chamar o diminutivo de alguém, passar os minutos pensando se fui correto e o errado se impor. Depois de vir embora, expulso do templo do tempo, melhor assumir domingueiro o espírito encarnado e matreiro com alguma elegância. Ponho os santos indianos de barro dourado de costas à porta, como reza a história de Ariany, e vou. "Seu perfil parece argentino", disse Ed. Um rioplatense à moda antiga, talvez, mas tão malandro e poeta quanto o Brasil ou "bola japonesa no céu do sertão". Tai diz que assobio autoajuda, ou qualquer religião. Digo a ele quê o que escuto e vejo é menos que alienação. "O infinito é tão-somente fantasia", completou. Sentei no banco de alvenaria da praça Nossa Senhora da Luz, olhei a fonte um instante, tentei ler um artigo sobre a tendência do homem natural, acendi um cigarro mansamente, segurei a coleira do cão, e nada respondi. Um vestígio de homem diluído pelo sol parou e afirmou: "É distinto até com o maço de cigarros". Artur, ao contrário, costuma dizer que tenho cheiro de brechó. Lucas apela ao viço da pele. Eu, por minha altiva tez, digo mesmo que não tenho limites nem fim. Tal qual o espaço, infinito. Como quando eu caminhava pela varanda da casa de Tia Zorilda. Um cheiro de quando a vida tarda a passar, da pausa para o sorvete, do jovem casal tatuado passando ao tabique com sua criança de vestido rosa. De quando eu corria pelos cômodos antigos até o quintal de azulejos, ladeando a quixabeira. Ia às pressas à pia de louça talhada para o rosto banhar. Corria a água no rosto como que lavando as rusgas de opinião, as expressões viciadas, os pensamentos vãos. Olhava pela moldura decorada do espelho e pensava: por que justo a mim cabe a obrigação de ser eu? Assim, com princípio, menos infinito do que Deus. Movia-me então, feito síndrome de Mafalda, ao parapeito da janela. Via passar Sussuarana, Pau da Lima, Doron, até a igrejinha. Comprei meu bilhete de passagem ao futuro sem horizonte definido. Na passarela, filipetas propagandeavam cartomantes de óculos escuros. Bruscamente, numa esquina, uma moça chorava agarrada aos seus murmúrios e um homem, com arma em punho, ordenava que outro deitasse ao chão. É o mundo, sem perdão. Tudo que existe, e nem sempre se pensa, é assim...urgência, ansiando por renovada inteligência. Lentamente, sem nenhum traço de pressa, voltei pra casa e dormi, como barco a circum-navegar pelo raio do sol. Chamaram-no de Tûranor. E a tarde foi caindo ali em tom cinza-outono. Em meu sonho, uma bela mulher deu-me pimenta de cheiro, abacaxi e melaço. Um homem, de alcunha Canadá, deu-me carona de volta em sua própria barca de mar. Viagem gratuita de infinitas ondas de alegrias é dormir. "Larguei meus sonhos em alto-mar. Meu peso em ouro para quem encontrar", cantou Luiza de pé sobre a embarcação. Verso esses elementos ilimitados porque nós, poetas do sono, acertamos quando rimamos. Não fosse assim, o trecho deserto da praia do acordar seria só areia com histórias aqui e acolá. Coloquei, última vez, meus pés na água. Vi uma tábua, uma tartaruga, um cão uivando, um rapaz se equilibrando na cerca do tempo infinito e um corpo azul-dourado correndo seminu. Sustentei o olhar em rochedos não muito distantes. Pescaria de fim de tarde. Homens jogavam e puxavam a rede. Outros içavam a isca na linha do anzol e atiravam ao mar. Das canoas ou das pedras, o tempo era o da espera, o da imortal humanidade. "Homens de azul com seus peixes que brilhavam", sussurrou Coco. Despedi-me para despertar. Nuvem na baixa, sol que já não racha. Nuvem na serra, sol que já não terra. Fitei o horizonte e fechei os olhos de brisa e de fronte. Fiz amor com o tempo permanente. Se tudo em movimento é tão consagração e profundo, meus pensamentos também são. Sãos do mundo. Acordei, os olhos em júbilo, superiores a todo limite, muito além da luz do farol. Bem cabia uma profecia, cantarolei baixinho, sozinho. É que sempre que sonho com o mar, parece ser também sempre a primeira vez que o vejo, sem cessar, sem interrupção, como que o coração na maré, vestindo a fé de nunca partir. O mar, quando vejo aos domingos, é coisa que, dentro de mim, não pode ter fim.

Marco Antonio Jardim

quinta-feira, 24 de maio de 2012

PÍLULA DA MARÉ BAIXA - Número 47


Diante de certo caos, retorne ao olhar interior, ainda que seja frio, inquietante, quase entediante, mas sempre vestido de acolhedor. Minha alma pode até estar meio perdida numa esquina, no Rio Vermelho, mas nunca silenciosa como os depoimentos da comissão parlamentar. Se alguém encontrar, seja Dànskï ou Policarpo Quaresma, que envie pelos correios, mas não ria. É que se a política se apresenta a mim, sobretudo a que fala língua tupiniquim, não rio. Existe quem o faça, mas espere só a maré baixar. A que foi vista entre Ondina e Amaralina, sozinha, encostada nas tendas de Cira e Dinha. Pescadores afirmaram que viram a maré dando presentes a Iemanjá, rainha do mar. Numa estreita via, passando pelo Beco do França, a bolsa vazia de burburinho. Bem ao meio do caminho, no Largo de Santana, bebericando vinho. Em outro logradouro, descendo a Alagoinhas, próxima às cinzas do Imortal, foi vista minha força vital, minha maré. Até no mercado do Largo da Mariquita, trocando olhares com o repórter da multidão. "Pensando em jamelão no Rio Vermelho", onde o Rio é mais baiano. Meu princípio sensitivo estava Caetano, nu, rondando o fantasma de Caramuru. Minha alma e seu quilombo. Banhos de sal nas estátuas de bronze de Colombo. Cheiro de especiarias no tango do Café & Cognac. À vista, Confraria das Ostras, MidiaLouca, Sushi Deli e, depois do fim, Postudo. Minha ópera do malandro nada mudo, imaterial e boêmio. Meu coração tropicália, quase obsceno. Um pouco de café com emoção. Conhaque, mel e limão. Languidez, papos eróticos, cigarro e caipirosca de morango na mão, resumiu Daisy em seu vestido de crochê multicolorido e colar de cerâmica plástica araçá-azul. Da Roma negra mais brasileira, Mônica. Do riso de lantejoulas, Ana F. Do feitiço, Joline. Da vida real, sonho. Do cinema, Rafa em folhetim. Do teatro de saquê, Hebe Alves. Do lado do mar, areia do Buracão. Se o dia amanheceu ou não, minha foz desembocou ali, rubra e devota. "Os arredores são encantadores e um forte muito arruinado contribui para o pitoresco da paisagem", havia escrito Tollenare, afanado visitante francês. Será que me convence a tentar, novamente, um amor adolescente? Veja, não creio não. Meu sentimento tem sabor de fruta madura, ou isto é. Que cai do coqueiro sobre a taba do globo na praia da frente, virada pro sol em urdidura. "No meio da taba tem muito amor, candomblé, ijexá" e o leite da vaca negra e profana, derramado na farofa de banana das próprias tetas dessa época. Pois que jorre o leite bom na minha cara, feito a folha da Bahia, do Rio, de São Paulo, dos Santos de qualquer maré. "E o leite mau na cara dos caretas", ouvi cantar na barraca do vendedor de fumo de giz. "Sua cabeça vive em brainstorm?", perguntou Jonny. Cabeças feitas feito imprensa de pele marrom, no observatório da Baía já escura. Distintas na cor, iguais na doçura, Nabila, Sayonara e esta "Bahia onipresentemente", vista do MAM, com meu clã. Crente aqueduto e chafariz. Senzala, alambique e a oração que fiz a todos os santos. Do jazz à Buena Vista no Porto da Barra pelos cantos. Tantas bandeiras, tantos dreads, tantas gentes lusitanas, tanta informação extra-oficial, que nem notei a sombra ansiada do Graal desse estadão. Talvez tenha se desfeito no único lugar que o horizonte do mar recebe o por do sol na maré. Mas "eu respeito muito minhas lágrimas e ainda mais minha risada". Aquela que não dei. Segui, portanto, minha entoada, caí no gosto da moçada e soube, pela mídia, que Julia me procurou. Do Baile Esquema Novo, no sotaque da língua do povo, é assim que escrevo minhas palavras publicadas em jornal. "Simbolismo clichê e enfadonho", criticou o blog da esquerda. Que seja, mas não rio. Perto do mar, minha alma é sonho (e o jornalismo crítico diz que é vazio). Da balaustrada, em despedida, saudade doída deste mar. Diante de certo caos, o cais interior. Afora isso, nessa política (nacionalista, eufemista, jornalista?), nesse marisco mal passado, encho o pote de palavras-arsênico e sirvo chá às cinco da manhã. Sob neblina espessa, esse fardo de alteração do nível das águas de baixa maré. Chamam de artigo de má-fé. Quer publicar?

Marco Antonio Jardim

terça-feira, 8 de maio de 2012

PÍLULA DO TEMPO DE MINHA GERAÇÃO - Número 46

Fotografia de Thomas Jackson

Se não tenho muito o que fazer, passo o tempo que passa nas linhas das mãos. Sigo pela esquina do Málaga, na Amazonas, pela alameda ladeada de amendoeiras até o fim da Maranhão e escolho uma das mesinhas amarelas da barraca Senhor do Bonfim, na Praça dos Patos, rodeada de prédios altos, pra algo fazer. Nem que seja apenas ver o quanto a vida é bela, imensa, é tanta que não se pensa. Ver sem lamentar, sem suspirar o não percebido das vistas. Surpreendente silêncio se faz nestas horas. E você, pois, faz o quê? Ousa viver? Está, tal qual Diane em sandálias baixas, sentindo o cheiro bom de especiarias, os condimentos da esquina? Anda pela cidade se declamando fina poesia que, sob a luz do dia, cobre de claridade o poeta? É que em ruas assim fica fácil absorver a realidade. Ruas de Santa Teresa na voz escrita de Jorge Salomão. "Uma colina, um morro, um estilo de vida". Força estranha movida a sorriso que ama, como o de Fellipe, a tudo de ontem e de hoje, o que foi e o que já não é. É lá que todos se cumprimentam, ou não. Que se respira assim, fora do comum. Levanto e, preguiçosamente, desço o passeio em declive. Vejo dois gatos brancos, um deles de olhos claros. O cheiro do tempo continua o mesmo, às vezes chuva, às vezes outras águas. O feijão é de todo dia, irrecusável, gostoso e lógico. Azuki, fradinho, rajado e branco. De corda, carioca, preto, jalo, bolinha, vermelho ou rosinha. Cheiro de tempo bom, exclusivo, de confort food. Do velho vagaroso que passa ainda por trás de mim. É o tempo avisando seu vagar. É o céu laranja da tarde caindo atrás dos homens na obra. A calma profunda da minha tia Deise, o ar. Os cômodos, as peças no mesmo lugar. A mandala lilás e verde numa parede, a mesa de bambu, o santuário com imagens sincretistas e indianas, as fotos de família. Os discos e os filmes, roupas e acessórios. Uma foto de Yogananda ao lado de Jesus, um aroma de lavanda e a recordação de uma festa à contra-luz. Uma boneca chinesa, um paninho florido na pia, o perfume Cuba. Um ventilador de teto, a mesma cortina, brinquedos, mangás e souvenirs preciosamente guardados numa estante, além do vestuário espalhado. O enorme armário de madeira, o jogo de louças preservado. A areia e o pátio dos fundos. Tudo tão peculiar nesse tempo do coração. Até a lembrança amarga de minha mãe fazendo bermudas quadriculadas para me dar de presente antes de se despedir. A mesma janela em que fui chorar. Era feriado nacional. No tempo de minha geração, nunca é tarde para amar. Feito Paulo e Virgínia e seu sonho ideal. De noite, levitando, passando por cima do portão até a antiga igreja. De dia, estendendo as mãos, ateando fogo, comandando os ventos. E em meio ao tempo dessa caminhada, chá de umburana e noz-moscada. Abacate com mel pra romper a manhã. De Rubem Alves, milho, pipoca ou piruá? De Yahn Arthus-Bertrand, o espanto diante da beleza do mundo e do mar. De Thomas Jackson, o cardume dos objetos em fotografia. De Henrique, a Madre. E o pouco que a gente pisa só é cafona sob nossos pés. Sua geração é a minha, designada por uma única letra, a da que completa trinta e alguns anos, dos que fazem porque há estilo de vida no fazer. Bilíngue, coleciona wayfarers e alargadores, acha os filmes ingleses convidativos, escuta Death Cab For Cutie à noite e Edith Piafh ao dia, fumando cigarro e tomando capuccino. Não gosta de pop. Admira Edvard Munch e, por vezes, grita alto também. Talvez não faça a linha cult, mas adora Portishead. O que fazemos é exegese do profundo livro da vida que vimos. Não, não vimos a roda-gigante de Chicago, nem figuras estreando no Ártico, muito menos balões no céu. Tudo que sabemos do tempo se pauta em simples imaginação. Em outras mesas amarelas na Pão & Prosa, na arena de patinação, na Boca do Rio, na avenida Iemanjá. O bafo do meu tempo é que mareia. É domingo. Dia das meninas tomarem sorvete, do filho dar a mão ao pai pra aprender a caminhar, de ver meu irmão dançar, das folhas amarelas forrando o chão, de Jamille rir da calma que ria à calmaria. Dia de deixar o tempo resolver o que acontecer, do vento que passa e não leva, do dom de viver. É tempo de reparar, querer bem, estar bem. Do araçá no pé, do quintal de Cajazeira, das trilhas da mata e o latido do cão. Do céu nublado à saudação. Que caia a chuva, mas que não cesse essa paz de minha geração. Uns tomam doce, outros são doces. Alguns morrem na Síria, outros ainda morrem de amor. Alguns vão à universidade, estudam em gramados, sustentam ideologias, outros fazem aplicativos e enriquecem. Alguns temem a bomba atômica, outros oram no sentido do nascer do sol. Alguns votam nos republicanos ou ainda acreditam na esquerda. Outros só vestem jeans. Muitos ainda querem ir à lua, uns contam estrelas e outros são constelação. Eu, partícipe sem idade de minha geração, não sou produto pra consumação. Sou contraditório, mas sou imenso. Há, como há também em Walt Whitman, um ajuntamento eterno de coisas, gentes, sons e silêncios dentro de mim. No fim deste tempo, o que quero mesmo é comer, viver e entender o sentido de amar.

Marco Antonio Jardim