domingo, 8 de maio de 2011

PÍLULA DO TEMPO PERDIDO - Número 7

Veneranda irmã Nalim

Foi-se Nalim de volta a Minas. Fica a varanda. É como chamo o espaço que ela deixou em meu coração. Um terraço comprido e coberto, com uma sacada, janelas laterais abertas, e, no meio daquela porção de lugar, balões coloridos, amarrados por uma linha numa cadeira vazia, como na obra de Myeongbeom Kim. Quando me esqueço de ser a própria cadeira, que já não tem uma das pernas, vou até as janelas ou ao balcão e vejo o tempo. Tiro fotografias de uma caixa vermelha, olho-as e percebo que Nalim é a certeza de que uma parte de minha história, uma certa meninice, morreu. Não sei bem o porquê, mas me veio à memória uma cena de quando eu me sentava ao lado dos meus tios Zezé e Alfredo, na velha casa do Tororó, e assistíamos TV. A voz morta de Lombardi ecoava. Parece risível, mas conservei a imagem de Xuxa, com suas botas brancas de full plastic enlaçadas até o joelho. Sim, minha iconografia está se perdendo. Os poetas estão morrendo e, os heróis, de overdose do esquecimento. Terminantemente, ando avelhentado, ainda que eu aparente os idos vinte anos, mas sou já dos que usam cinco cremes por turno, incluindo Renew. E já partilho de assuntos enfadonhos. Falo de finanças, de coordenações e atendimentos, de planos e pautas. Muito antes eu ainda sonhava com um jeans, com a paz no Tibete e queria montar uma banda. Até pouco tempo atrás eu fazia um registro de cenas, que durou quase cinco anos, em que ainda alimentava a alcunha de alternativo e tinha passe livre nos portões de entrada. Eu me sucedia, continuamente. Eu era o que se costumava chamar de cool, fumava cigarros com certo ar blasé e até queria ser DJ. Hoje, cobram-me os bilhetes e o perfume, sequer olham meu estilo e nem perguntam do que sei. Saí de cena e caí em certo ostracismo. Saudade de qualquer época da cor do ouro. Porque, hoje, os garotos de uma tal geração Y celebram os gestos obscenos da androginia de Lady GaGa e desconhecem que a Srta. Ciccone fez tudo isso antes. Parece que, findo o meu tempo, não tenho mais assunto, nem estampa. E se eu gritar "Do it yourself!", ninguém há de escutar. Pensar como Virginia Woolf é até defeito e transgressão. Ela que foi uma das mais importantes escritoras britânicas, a Proust inglesa, que convivia com a nata da intelectualidade desde pequena. A casa dela devia ser o excelso da ebulição do pensamento, com toda aquela gente extraordinária indo e vindo, passando por alguém que criou o fluxo de consciência. Mas o jovem jornalista Cristiano prefere comprar um livro escrito por uma faxineira que trabalhava em sua casa do que ter um exemplar de "As Ondas" ou "Mrs. Dalloway". Prefere saber da costura malfeita da vida privada de quem colocava empregados para dormir em quartos úmidos do que ter a ciência de que Virginia morreu. Teve um colapso nervoso e deixou um bilhete citando as pessoas que amava. Vestiu um longo casaco, encheu os bolsos com pedras e entrou no rio Ouse. Hoje em dia se morre violentamente de perda de sangue, mas não mais de amor. Hoje fala-se em esteiras, bíceps e extensoras, e eu ainda na posição do símio, de ponta a cabeça, vendo o mundo de uma forma que outras gentes parecem ter esquecido de ver. Ainda quero ir a Paris, ser convidado a tomar um café, recusar delicadamente, andar a esmo, ver a lua e sorrir. Cantarolar sozinho "lua cheia, meia displicente, presente no meu coração", sem receio de parecer piegas. Começo a pensar que vou ser mais um a ter o destino de Virginia quando escreveu ao esposo, no termo do tempo perdido, "Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Não posso mais lutar. O que quero mesmo dizer é que, a você, devo toda minha felicidade - e todos sabem. V.". Na varanda, olhando uma foto de Nalim, de pijamas, com sapatinhos azuis e seu imperecível cobertor cor de rosa, postada em pé no corredor da casa da Rua 7 de Setembro, pensei em voz alta, como que a guardar o tempo: "Veneranda irmã, não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto fomos nós".

Marco Antonio J. Melo

17 comentários:

  1. Quinho,

    Impressionante como você tem o dom de dar vida àquilo a que chamamos de passado, reconstruindo as imagens através da palavra.Eu consegui visualizar não só a varanda da casa onde morávamos, mas também a sua varanda interior. Dá uma vontade danada de viajar no tempo e buscar aqueles momentos para a realidade atual, como forma de fortalecer o que há de melhor em nós. Nalin foi-se, mas a afetividade permanece, os laços fortaleceram-se e a força da sua narrativa deram uma nova roupagem e encantamento a fatos que me pareciam esquecidos. Cheguei até a sentir o cheiro da meio coberta em rosa pálido, esmaecida ao longo do tempo pelo excesso de uso.
    Há um certo tom de saudade no seu texto, acentuado pelas lembranças que a muitos poderiam parecer sem importância, mas para mim representam forte dose de uma existência rica de aprendizado. A pequenina Nalin, que hoje se fez grande, lado a lado com o Quinho de todos os momentos, fez-se tão nítida , tão verdadeira, e ao mesmo tempo tão diferente...Nalin cresceu, você cresceu é bem verdade, mas a riqueza de detalhes no discorrer de suas palavras fez com que ainda os visse pequeninos e serelepes, ainda que não sempre juntos.
    Posso parecer suspeita ao falar da riqueza do seu trabalho, por isso deixo de lado por alguns momentos o meu lado materno, expondo apenas os pensamentos de leitora , fã e amiga do jovem maduro que não se intimida ante a palavra bem dita e as idéias bem elaboradas.
    ...............................................
    Agora, volto a ser a mama Elva, deixando aqui o meu orgulho por ter gerado um corpo físico para um espírito tão maduro.

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  2. Só você pra fazer piadinha com cadeira tão descaradamente, ri demais hahahahaha
    coisas que nao concordo: seu tempo nao passou e vc ainda é blasé, e com o que eu nao concordo menos ainda é que vc seja uma cadeira faltando perna...pra mim vc é uma poltrona muito fancy!!

    Ps: quando quiser dar um pulinho ali em Paris, me avisa que eu faço questao de acompanhar, a gente aproveita no caminho e passa pra buscar naná pra vc e eu matarmos a saudade.

    beijos miranda priestly!

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  3. Lindo texto e bem nostálgico!
    Adorei!
    Vc foi um pouco duro com vc mesmo, hein? rs

    Bjão Marquinhos!

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  4. Acabo de tomar uma pílula, e percebo como a gente deixa o tempo passar. Tempo tão passageiro e, quando o observamos correr caimos na gargalhada de como fomos relapsos a pensar que podemos dominá-lo. Se bem que podemos, de certa forma, entrando num acordo com ele. Acordo este que é construido à medida em que cria-se a consciência de que você ainda pode viver tudo, ou grande parte do todo, que desejas.

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  5. ahh o corredor!!!!!!!!!!! o único que resiste ou existe!

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  6. olá Marco, que texto introspectivo, que faz refletir o nosso passado e ver o presente com possibilidades de trabalhar naquilo que é preciso para o futuro.
    Grande abraço, continue com as pílulas...

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  7. "E tudo que chega ou que vai é bom por algum motivo.
    Falo de coisas, pessoas, problemas.
    Da porta aberta para quem chega.
    Porta da rua, porta da rua".
    Que narrativa preciosa, muito bom.
    Ah, tb sinto saudades de Nalim.
    Grande abraço.

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  8. Meu querido e agradável ao espírito primo. Compartilho, mesmo à distância, destas chagas e sortes que a vida nos traz, porém discordo desta morte. Discordo com força de desvestir suas fantasias. Concordo que as pessoas estão mais vazias. Discordo que você não é mais Cool. Talvez até concorde que o ostracismo exista, mas ele é como deve ser ou como convém que seja... Perder um pedaço é ruim e não adianta passar pó de café ou pasta de dentes, mas com aquele sentimento que induz a aproximar, a proteger ou a conservar a pessoa pela qual se sente afeição, nada se perde.

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  9. Uma sensação de nostalgia doce e pura tomou conta de mim, voltei aos meus tempos aureos de bolas de gude, de pirucoptero e de sair de taxi com angelica, ecou pelos meus ouvidos a voz da minha mãe mandando que eentrasse pro banho e dos meus colegas a minha porta brincando pelas grades do portão qndo eu mais uma vez estava de castigo, senti o cheiro de terra avisando o delicioso banho de chuva, do qual ao final embarcaria meu barquinho de papel da poça d'gua, sent ainda o gosto do blo de aipim preparado pela minha avó, e a dor do joelha ralado pelo jogo de futebol, e com a mesma dor na cabeça de qndo cai de um cavalo, voltei e me vi homem , triste por ter crescido, feliz por ter vivido, seu conto me despertou sentimentos opostos , porém complementares para entender o quão sou feliz!

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  10. Marco, seu texto é bonito, nesta articulação de sensações nostálgicas e até um tanto amarguradas...

    Penso que o passar à vida adulta implica mesmo passar a pensar e sentir o mundo como algo palpável e cheio de convites bem menos interessantes do qe aqueles que vc diz ter deixado de ganhar. Porém, pode ser bom, mesmo para um poeta.

    A depressão de V. foi um sinal dos tempos, catalizado por uma alma incompreendida numa Inglaterra de herança Vitoriana e opressora. Em nosso tempo, cabe aos poetas respirarem em meio a um lamaçal fétido de truculência e irresponsavbilidade, próprios de uma geração superestimada e ególatra.

    Despir-se destes símbolos de status, destas ataduras claustrofóbias, cheirosas a cigarros e sujas com o escremento de nossas ilusões, é preciso. Sejamos francos, o melhor está por vir. Guardemos em nós a fé no tempo. "Tempo Rei". Sigamos.

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  11. É realmente um texto melancólicamente feliz. Vo t seguir!

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  12. Tem coisas que a gente guarda com carinho. Outras, por sua vez, não devem ficar na gaveta. Como essa aqui: http://contatu.blogspot.com/2011/05/eu-vou-guardar-voce.html

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  13. Adorei o texto, Marco, embora sinta que minhas lembranças sejam só lembranças. O meu modo de ver a vida, desde pequena, fazia com que eu esperasse pacientemente pela maturidade. Hoje até me arrependo um pouco disso, apenas pelo fato de que poderia ter aproveitado mais um tempo de menores preocupações. Até saber quando não é momento para se preocupar é um sinal de maturidade...
    Aproveitar os momentos de rir, de brincar, de esquecer (mesmo que provisoriamente), são sinais de maturidade. Ainda bem que aprendi isso...

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  14. Nostalgia boa,é verdade também sinto falta daquele corredor, dos cafés com biscoitos nos fins de tarde, mas tem nada não bobo pelo menos temos algo para contar, rir e chorar e apesar de não estarmos sempre juntos fisicamente os espíritos se unem e e quando nos reunimos é festa novamente para quero renascer na mesma família com as mesma pessoas só para dizer mais uma vez EU TE AMO vc é lindo, primo querido!!!!!! Bjo MadMax

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  15. Acabo de escrever um texto enorme , no súbito dos efeitos emocionais que o tomar dessa pílula me causou, que ao tentar enviar, se perdeu, pelo meu perfil não ser aceito neste espaço (como não é em muitos outros, rs.). Senti até uma dorzinha no estômago, onde tento digerir as lições nas quais tropeço. Por prestar atenção aos detalhes da vida, nos sinais do presente, reflito: Tento escrever tudo de novo ou aceito a perda que o 'acaso' me prega como peça? Prefiro ficar com a lição que me vêm na intuição, a do desapEGO. Afinal de contas, o texto anterior, que talvez tenha sido um desabafo que acabou de cicatrizar mais uma ferida, que só a mim pertencia, não devo compartilhar, se finalizava falando que entre o passado medroso em que não conseguia dormir sem meu velho cobertozinho, e o futuro esperançoso em que acredito no sonho de me ver com você lutando contra forças malígias nas florestas (de pedras vistas por mim), em que usamos raios coloridos como armas infalíveis, eu fico com o agora: o presente precioso, no qual tenho um quartinho de madeira, com cada vez menos pertences, tintas com as quais quero colorir tudo à minha volta, instrumentos musicais para realçar a voz que cansou de se calar e só quer passar a paz que encontrei pro mundo, uma mandala, a qual as cores refletem o quanto quero e preciso me aterrar nesse presente, e uma pintura impressa, que ganhei no último aniversário, com a imagem de São Francisco de Assis e uma frase que diz assim: "A Simplicidade é o Máximo da Sofisticação".

    Amo-te, não pelo que já foi, muito menos pelo que serás, mas pelo que é, adormecido no que agora estás. Seja Anjo, ou seja Morte.
    O Deus que há em mim saúda diariamente o Deus que há em você.
    A distância entre nós nunca existiu.

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  16. Rosangela Caldas9 de julho de 2011 18:30

    Eu ri, chorei e alguns momentos me encontrei. O escritor tem sim, essa adorável missão, de trazer de si e repartir com "gentes". Quero ainda continuar "bebendo" dessas "pilulas". Abraços.

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