sábado, 24 de março de 2012

PÍLULA DO OUTRO LADO DA LUA - Número 43

Cena de "Viagem à Lua", de Georges Méliès

Na observação de mundo em que me coloco, um lugar com algum privilégio, nada parece pequeno ou insignificante. Pode ser a janela de um trem, de onde olho, distraidamente, a paisagem exuberante cheia de vales, curvas, matas e bichos nativos, descendo pela estrada de ferro de Teresópolis ao Rio, ou o espírito concentrado sobre a lua, acostumado, talvez, a qualquer outro satélite aparentemente estático. Façam sol, façam chuva das coisas vistas, as palavras têm leveza. A essência do que é pouco espesso, seja pluma ou alumínio, não está justamente em melhor apreciar as coisas do mundo? Numa de minhas marcantes visões, vi, sobre o mar, tal imensa, cheia e alaranjada lua ao fim do dia, displicente tanto quanto o aro que ao seu redor surgia. Sorria a lua para mim, como numa cena de Georges Méliès. Passei as vistas pelos cantos do vagão e ninguém mais parecia perceber, entretidos que estavam os passageiros em malhar os próprios pensamentos na poeira dos trilhos. Os homens ou os astros? Quais deles são mais antinaturais? O satélite da Terra ou o homem em sua forma ocasional? Se tão crescente é o comboio ferroviário, o assento, o vidro úmido, não devo ser, portanto, o único a dar respiro à paixão. Se fosse eu só em minha espécie, suponho que não existiria nem mesmo amor, sentimento visto, por aí, rindo, pasmo, em consonância com a passagem do tempo na estação. O riso é este poder universal, comum a todos, mesmo às expressões mais sisudas que ocupam a primeira classe, tão cheios de si quanto da obsolescência do saber. Decidi, então, buscar. Estão próximos aqueles que são um pouco mmais amáveis. Comecei por eles. Edmarcos, por exemplo, jogador do desporto mais popular, porém despovoado, deserto e triste, estava acomodado à minha frente. Dele, o riso é só contração de face e boca. Sem alma, sem júbilo, projeto de amor pouco viável e, para tantos, nada desejável. Sem os sabores de sorvete de coco, tapioca e cupuaçu que o vi tomando no vagão do meio. Mantive o olhar atento ao que lia sobre o Rio e anotei suas expressões. Rio, rindo comigo mesmo, do moço que pedia os bilhetes, outro de molho agridoce. Tão autômato atendente em seu olhar europeu que possuía nome que não mais sei. Uma senhorinha festiva, ao lado de uma criança que se esmerava em tentar dar fim a uma mariposa pousada sobre a cortina dourada, dando-se conta do semblante circunspecto do bilheteiro, ditou, em alta voz, em citação a Oswald de Andrade: "Antes de os portugueses descobrirem o Brasil, o Brazyl tinha descoberto a felicidade". Ditoso fiquei, pois, quando fui proibido de acender a cigarrilha e parei no afã da falta de ar da passarela mestiça para me assumir verão. Pela primeira vez em dias, peguei-me num riso sardônico dos que a sério não se levarão. Eu me esqueci em riso, decidido a me achar na margem do mar e do Rio. Deixei minha bagagem no vagão e, dentro do tempo que me foi dado, saí para caminhar pelas redondezas. Parece existir um espírito novo que resiste na orla. Rapazes que vestem roupas femininas e moças em vice-versa. Trajes sumários à beira-mar. Homens desposados em busca de satisfação sob os tecidos leves dos maiôs de agora. Escutei, ao longe, o instrumento de sopro do amolador de facas e, ao eco, o triângulo do vendedor de taboquinha. Na costa, bem ali na linha, a que separa o mar dos paralelepípedos, ou o oceano de um continente revitalizado, havia um vendedor de água de coco, Renato. Sob sol a pino, dorso nu da cor de crustáceo, calças de tecido cru amarradas por um cordão e dobradas até o tornozelo, e imenso chapéu de palha, ofereceu-me água. E eu cá, com meus botões, sonhando com o chá de hibiscos servido por minha tia Régia. O vendedor riu do meu ar presunçoso e disse: "Senhor, moro na Babilônia, mas não sou daqui". De onde, então, todas aquelas cenas inesperadas que me deixavam algo que boquiaberto? Nunca vi antes nem no Jardim de Alá, ou dos Namorados em Petropólis, nem na Lagoa dos Patos, muito menos na esquina da Rua Piauí, no Engenho de Dentro com a Maranhão. Até os cheiros, de sarapatel, bife acebolado, carne do sol, frutos do mar e pimentão, pareciam render uma nova existência. Que fazer diante de tal contigência? Aceitar o zeitgeist? As coisas no Rio parecem ser assim mesmo, por vezes dor, mas tão logo sussurram ou gritam uma expressão de amor em esquina. Do Kana Kaiana baiano ao Bonfim, do Redentor ao Ed. Manhattan, até o copo de destilado nas mãos cheias de anéis do barão bicheiro. Olhei o relógio de bolso, voltei à Estação Leopoldina e sentei num dos banquinhos de ferro fundido da plataforma. Vi um rapaz de traços orientais em pele negra. Ele me olhou nos olhos e se apresentou. Marcos, tal qual um São Sebastião ao estilo Yukio Mishima. Dei a ele minha pulseira de cascas de frutos secos revestidos a ouro e voltei ao trem para seguir viagem. No momento em que olhei para o perfil desta figura que diminuía à medida que o trem partia, estremeci com pagã alegria. Minhas mãos iniciaram um movimento que nunca tinham sido ensinadas a fazer, o de despedida. Senti alguma coisa secreta, radiante, subindo de dentro de mim. Subitamente jorrou perdida em tanto meio sorriso e nua. De minha atenção flutuante, o que para mim é tão produtiva, sobrou-me, outra vez, ao longe, a visão do outro lado da lua.

Marco Antonio Jardim

domingo, 18 de março de 2012

PÍLULA DO FEITICEIRO - Número 42

Iogue sobre a Pedra do Sino, montanhas de Teresópolis

Dos poucos momentos em que abro os olhos - o que normalmente faço para observar, pelo espelho, se minhas posturas estão corretas - percebi que você tem profunda dedicação, contemplação e reverência. Perdão por manter meus olhos abertos em observação, mas é muito bonito de ver. "Que memória romântica e sensível! Como me percebeu? Admiro imensamente essa fluidez com que as palavras são encadeadas. São cenas onde podemos ver, ouvir, sentir cheiro, tato e paladar através de palavras. Suas letras fizeram ativos todos os meus sentidos". Foi uma impressão. Aliás, foi além. Subi as escadas, vi seu rosto e uma expressão que não reconheci. Vi uma moça bonita e um senhor com típico semblante. Abracei Carlos, falei do zodíaco, mas, no canto dos olhos, só observando. Dei um meio sorriso a você, não sei se atentou. E enquanto eu calçava meus sapatos, você olhou. Gosto quando olham e leem o que veem. São pedaços de realidade. Desculpe a longa tergiversação. Às vezes sou lírico, outras prolixo. "A moça? Minha irmã. O senhor? Meu pai. E eu percebendo seus sorrisos e olhares de maneira natural, espontânea, retribuindo. Senti-me visto por dentro, desarmado, despido. E gostei. Moro num lugar onde há muito de mim, onde há calmaria, montanhas em todas as direções, revoadas de periquitos, beija-flor na janela, brisa sempre fresca e inverno frio. Sempre há música ou comidas, ou os dois. Não há, pois, o que desculpar. Está sendo agradável". Gosto dessa conversa compartimentada. "E do que mais você gosta?". De todo dia ser diferente. Penso que amo, às vezes penso que não. Entretanto, hoje penso no exato instante. E, daqui a pouco, poderia lançar um livro, fazer algum sucesso e passar um tempo na Europa. Você aprende a amar? "Já mudei de cidade, casa, amigos, por vezes por obrigação, outras por vontade. Sempre tive que aprender a amar. Qual o dito que carrega consigo?". Uma camiseta de domingo, trechos de livros, capas de revistas, coisas que vou absorvendo devagar. Minha citação é que, nesse momento, vou me levar a passear, almoçar meu prato de comida chinesa preferido, comprar um vinho, um disco, um filme de amor, pra me gostar, me amar. Quer ir comigo? "Convite tentador! Tenho tido tempo pra pensar. Tempo no ônibus a caminho do hospital, tempo para ler o mundo, tempo para meditar. Qual o seu tempo?". O de alguma canção. O de dançar sobre a cama ao som de um disco de verão. O tempo dos livros de cabeceira. Você gosta de sorrir? "Sim. De chorar também". Curioso. Sorrio pelo motivo mais banal e pelo mais profundo. Gente me faz sorrir, piadas nem tanto. Boas histórias, cenas inesquecíveis, rostos bonitos (sorri muitas vezes olhando o seu), cheiro de tempero. E choro com cena de novela e filme antigo. Você se acha bonito? "Por dentro sim. Por fora, nada de extraordinário. E você? Quais seus grandes prazeres de viver?". Comer, dormir, rezar, sorrir, amar, ler, escrever, sonhar e silenciar, entre outros inconfessáveis. "Pois eu gosto de cozinhar, de praticar yoga, de estar perto de meus pacientes, de viver música, ouvindo, assistindo ou tocando". Então você toca instrumentos? Encantador! Por que não casou? "Porque não tenho um canteiro pra firmar minhas raízes. Mas toco piano e me divirto com acordeon, pandeiro, triângulo, castanholas, flautas e percussão". Então você é um feiticeiro. Logo desconfiei. Como sentia falta de conhecer alguém de espécie assim. "Mas feiticeiros vivem em linha tênue". Contudo, são eternos aprendizes. Sempre estão pasmos com o mundo. Boquiabertos com as coisas que passam à frente. Quase perdidos. Explica o porquê do seu nome ser tão bonito quanto você. "Eu gosto do seu. É forte, charmoso, imponente. Quero conhecê-lo pessoalmente". Logo hoje que estou tão frágil, sem luz e acuado? Tem um abraço de cinco minutos pra me conceder? "E uma troca de olhar, se também precisar. Você tem medo?". Sou ponderado e sereno, mas também sonhador, desprendido em excesso. Você pode ficar um pouco mais? Se tivesse por aqui, roubaria um beijo seu. "Estou no sofá com forro de partitura, um banquinho de madeira crua à frente, uma estante de livros, uma viola caipira à direita e plantas à esquerda. Quero só ser especial. Nem mais nem menos, nem igual". Como o que vê no trajeto que o ônibus faz? "Pego o ônibus na Rua do Catete, passo pelo Aterro do Flamengo, por baixo dos arcos da Lapa, em frente à Central do Brasil, passo pela linha amarela e caminho um pequeno trecho até o hospital. São pedaços de paisagens". Nossa! Minha vida é assim todo o tempo. E não sou eu quem dito. É mágica, ou feitiço. Gosta de cupcake? Ou de beijo na boca? "Gosto muito de você. E da chuva que cai forte lá fora, com os pingos brilhando nos paralelepípedos, sob luz alaranjada, típica do interior. Estou feliz e confortável". Então explica como ainda eu não tinha visto você no mundo. "Não sei. Temos tanto em comum, não é?". Bigodes de foca, nariz de tamanduá, bico de pato e jeitão de sabiá? É tão lindo. Deixa assim como está. "O que você faz comigo? Dê-me o que puder me dar e, em troca, terá tudo que posso te dar. Impossível não te amar". Seria amar, portanto, envelhecer querendo te abraçar? No final, será o que não sei, mas será.

Marco Antonio Jardim

quarta-feira, 7 de março de 2012

PÍLULA DO PEITORIL DA JANELA - Número 41

Imagem de Tim Jarason

Sim, estou na extensão da dimensão do paraíso, do luxo de espontaneidade natural, de alma recompensada. De alguns dias pra cá, meu olhar cerrado se assenta num mar interior, a uma quadra da janela do apartamento. À meia altura da imensidão, abro as persianas de madeira e respiro ar e maresia. Reminiscências ainda da serra, enumeradas. Não como o mundo de cadáveres enunciados sucessivamente no poema de Colombo, mas com um intuito bem longínquo de me livrar delas. À frente dessa janela, uma criança sorri tocando o sino da trave. Mãe e filha passam caminhando, de mãos dadas, vestidas de primavera, ao longo da sacada amarela do casarão da Câmara. Operários, sentados em fila numa sombra de meio-fio, tocam o tempo chupando melancia. De algum espaço gourmet, um cheiro de bolo de puba. E o eco sussurrado de "Louisiana". Um moço, com roupas em desalinho, passeia com cães Basset. E um certo amanhecer cheio de neblina persiste sobre a serra. Alguém, que não enxerguei quem, grita uma declaração de amor. Um jovem pai ensina a filha a andar de bicicleta. Num poste, um cartaz mostra John e Yoko na cama de um hotel, pedindo paz. Avisto o sobrado, ao lado da igreja da Capelinha, antes assombrado, inaugurando agora uma escola de balé. De um carro em baixa velocidade, posso ver um menino cheio de gracejos sorrindo pra mim. De um raro avião no céu azul, um sinal. Um senhor, balançando uma amendoeira, tenta espantar os pássaros. Um outro anônimo, em frente ao banco da orla, acena a esmo. Vejo, encostado no peitoril da janela, uma garota de cabelos cor-de-rosa. E um companheiro se apoiando nos ombros de outro que pilota uma motocicleta. Puxo meu short Soul Carioca sobre as coxas, pra sustentar uma perna sobre a outra. Recordo o gosto do torrone, a conversa amena e o jardim de Rafaela. O convite de Helinha para um jantar à beira-mar. Repasso um poema de Ezra Pound. O que rima sensibilidade e radar. Ou a conversão da "Conversa Infinita" de Maurice Blanchot. A madrugada. Os verbos da doação de jeans à Cotton From Blue to Green: reciclar, reutilizar, reduzir. E o sotaque esmerado de Will. Também a sugestão de Túlio a Clarah Averbuck e suas coisas esquecidas atrás das estantes da praia grande no escuro, do que aconteceu em Woodstock e do cheiro de chuva na última sexta-feira. Da feira de biscoitos, pão de alho e requeijão que fiz ao lado de minha mãe. Da frase do rapaz na fila do Candeeiro: "Te vejo há dez anos". Debruçado no parapeito, vejo até o mar do Rio de Janeiro. E a nascente do Orinoco na América do Sul. E a posição do bailarino no gestual iogue de Kenio. Vejo Don e o dia passar. E a pungente dor de Émile Friant. "Há tanto tempo que te amo", parece dizer lá da esquina onde sumiram os homens. Apagando o cigarro na neblina, onde homens outros sumirão. E o choro de despedida do casal. O luxo do semileito, o leito, o sono do leitor. Estou, sim, de olhos fechados num paraíso, tamanho o esplendor. Só solitários inveterados como eu para dar demasiado valor especial a imagens e sensações que se correspondem assim. Debruçado na travessa inferior dos marcos da janela, nada mais vejo além de pegadas. Nada além de registros, lugares vazios e histórias cruzadas.

Marco Antonio Jardim

sábado, 25 de fevereiro de 2012

PÍLULA DA DOLCE FAR NIENTE - Número 40

Cena de "Into The Wild"

O sociólogo italiano Domenico De Masi deveria voltar a ser influência dos meus dias. Destes que me disponho a responder a mandriice alheia. Se me consultam é para perguntar quem tem pé de abacate, piscina inflável ou cão sem dono. Indagações sem aparente coerência, como os riscos que faço na palma das mãos e que termino por manchar as roupas claras. Minha medida de duração de tolerância está entre passar pela ponte de casa, em dia claro, e chegar ao observatório da solidão na madrugada semivazia. De um lado a outro, a abulia tem dois mistérios: o da poesia e o daquele que a lê, com as devidas interseções. Daí começo a me vestir de pedaços de panos velhos, para alegria de Raquel. Naturalmente que não estou falando do traje Calvin Klein que vesti no casamento do meu irmão, porque este provoca certa culpa. Nem das roupas neutras dos dias de sábado, vestes que não são ácidas nem básicas. Falo é de me vestir independente, feito ócio criativo. Com um pouco de recato, claro, porque é uma questão de conservação. Dizem que ando mais careta, chupando bala soft, ouvindo Sade, soul, jazz. Outros dizem que quero ser notado, não exatamente amado. Todas notícias de botequim. O que desejo é a junção de certo ar de naturalidade e outro punhado de liberdade. Into the wild. Minha esperança é que voltem a declarar (e difundir) o saudoso hábito do bom gosto. Seria uma ideal e suave indolência, meu dolce far niente. Algumas cenas me ocorrem, corroborando esta sensação: Luan de preto na webcam, Ros vestindo uma boneca pin up, Guto elogiando as vicissitudes da vida, os sorrisos de Mila e Breno no altar, o abraço leve de Jardel, o beijo de Di em sonho e Ana Paula, às 5h, numa esquina fria, falando sobre o suíço Stephan. Saudade de certa juventude e de mim mesmo assim tão frugal. De escrever em meu velho moleskine no topo da montanha. De alguma essência entre o sopro do dia e outro do crepúsculo. De ser célebre pelo que sou, não pelo que visto. De caminhar despido. Chamam tudo isso de geração schuffle, mas estou mesmo é retirando a roupa toda, retrô ou vintage, pra caminhar cantando, pensando nas invenções dos séculos. Cinema, rádio, avião. Foguete, biquíni, psicanálise, comunicação. TV, carro, globalização. Amor. Tiro a roupa porque fico me perguntando sobre certo torpor de minha essência, bem-estar, conforto e equilíbrio. Tirei a bermuda utilitária sem grife, a camiseta verde com estampa de estêncil, a cueca de listras e ando nu. Se criarem um jeans humanizado e eu perceber que estou, de certa forma e fato, transformado, volto a me vestir. Por enquanto, vou revolvendo a memória e fico tentando entender o que aconteceu pra eu digerir. O presente soa como um país estrangeiro, muito bem postado em seu terno cortado de viés em morno tom de azul. Meu irmão casou e me perguntam se não farei o mesmo. Sorrio em canto de boca e digo que, quem sabe, um pouco mais ao sul do tempo, depois de rodar o mundo. Sou só um cara jovem, de trinta e poucos anos, em que a única extravagância é ficar nu. Minha impressão de futuro é olhar o horizonte do alto, por vezes com um cigarro aceso, sem a pretensão de ser antena do futuro. "O futuro não será dos velhos cardeais, nem dos velhos políticos, nem dos velhos magistrados, nem dos velhos policiais. O futuro pertence aos jovens", escreveu o cineasta Pasolini em 1973. Eu sou, então, esse passado desataviado e um futuro, quem sabe, desarmado, desafetado. Nu e cru: sem disfarce.

Marco Antonio Jardim

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

PÍLULA DO LEDO ENGANO À PAIXÃO - Número 39

Eu, apaixonado

"Por que morrer com a desgraça do sofrimento? É melhor morrer por envenenamento". Recordo desse posicionamento pessimista de um documentário chamado "Jogo de Cena", carregado de olhar incrédulo, de cor negra, porque me faz pensar no cessar da consciência quando alguém escolhe não se apaixonar. Os cândidos creditam, ao termo paixão, os bons, ternos e belos sentimentos. É como enamorar-se perdidamente pelo firmamento. Por um espaço tão cheio de existência que tudo parece, deveras, mudar de cor. Nada tão próximo assim dos termos do amor, mas os apaixonados guardam relíquias, devoções, lembranças e recordações das estrelas. Sensação parecida me provoca o antigo apartamento de Cecye. Aqueles cômodos têm um inteiro significado de retiro particular. O chão de tapulho arranhado, o pufe de couro, a samambaia. O mousse de maracujá com sementes, a janela de onde se via o parque, a sombra boa de Thiago e o All Star de Indhira. A figurinha gasta no guarda-roupa vazio, onde se lê, de Maryse: "Nunca mais, nem morta, não quero, não posso, não devo. Humm...Então tá". É paixão. É deixar-se de existir para escutar aqueles passos aguardados no corredor, rememorar longas conversas no sofá, vendo a luz da tarde cair num sorriso franco. Até a cor cinza-cobre no centro da cidade parece ter algum encanto. "Se esta rua, se esta rua fosse minha...", cantou, chorando, uma personagem da vida real, num pedido de perdão. Ah, as fraquezas da paixão. Já é manhã de Carnaval, sento na cama vestindo uma samba-canção com estampas, tomo um copo com leite gelado e faço anotações no diário amarelado. Afirmam que pareço ridículo assim, mas sou daqueles que foi acometido pela conjugação do verbo apaixonado. Eu ainda estava desfiando o rosário da solidão, mas...e aí? Como fugir desse clarão repentino, misto de silêncio e de um olhar demorado, embevecido? Como se qualquer coisa dita fosse, assim, uma façanha. "Faça o que você ama", gritou a sanha da propaganda do Blackberry em canal fechado. Num dia, o cheiro do capeletti tomou o vácuo, no outro, verduras grelhadas atenuaram o calor. Os sentidos parecem ficar mais apurados quando se empresta paixão até a momentos de dor. De gusto ou palatare, provo as iguarias destes dias sentimentais. Quesadilla florentina no Blanco's e pão de três queijos com almôndegas, peito de peru, bacon, cheddar, molho de cebola agridoce, rúcula, azeitona preta, pimentão e cebola roxa do Subway. E provo das largas palavras contadas por Leo na tarde inteira. E uso o coração como expressão maior da cabedeira do meu pulsar. Os apaixonados são tão assim, piegas. Veem libélulas como há anos não viam, em forma de alma ou memória. E a luz, outra vez, muda de tonalidade em meio às pessoas quaisquer apáticas que viram as esquinas, as cidades. Paixão é como fim de tarde. É o tempo eterno entre um "olá" e outro "até", e o hiato repousado entre eles. Paixão: parece mesmo ter um significado igual ao eco do som da razão. E ao único gesto exato e humano que conta uma completa história. Das quinze às três horas da manhã de domingo. Tantas outras vozes catalisadas ali, em torno de uma camiseta rosa ou da voz de Marlua. Parece uma busca vibrante, amotinada e nua pelo sentido da vida vigente. Ah, essa apaixonada gente. Por que, então, não pode ser suficiente? Por que não colocar os sonhos bons no caminho daqueles que são descrentes? Por que, então, não ficar mais tempo? Revisitar o vento com esse ar de romantismo. É só apreciar meu novo corte de cabelo, meu magnetismo, meu prazer de viver. "Sob o manto da noite que me cobre, sou o senhor do meu destino, sou o capitão da minha alma", declamou um ser apaixonado. Os críticos afirmam, roídos de inveja, que ele perdeu a individualidade de tão fascinado pela vontade de ser. Ledo engano dedicado à paixão. Na minha reticente visão, creio que é só um desejo de abrandar a alma em rigor. Vai entender se não estamos nós, os apaixonados, falando mesmo é de amor.
Marco Antonio Jardim

sábado, 4 de fevereiro de 2012

PÍLULA ONDE A carNE naDA valE - Número 38

Colagem de Bäst

Onde a carne nada vale, nada mesmo poderia ser mais transformador do que acreditar na tradução atualizada e literal desse carnaval que a gente vive. Mas nem tudo está conforme o costume geral. Tem aquela história cristã das festas regidas pelo calendário lunar, mas o fato é que ninguém olha muito pro lado de lá. Nem abrem concessão às minhas historinhas contadas, requentadas, repetidas, tão liquidificadas que parecem invenção. "Em pleno 2012 e vocês ainda dão credibilidade a Marco Antonio?", questiona Ana Clara, com sua altivez usual. E quando o usual é a única frequência, só se admite o extraordinário quando este atinge a essência. O mundo não enxerga a mim, nem a você, Ana Clara. Olha pra Berlim, Nice, New Orleans, Veneza, Toronto, Rio, Recife ou Salvador (sem policial). Seja onde for, bocas, peitos, coxas, bundas e paus. Cada vez menos, o olhar do mundo sente músculos involuntários. Um artigo na internet até perguntou se ainda existe amor. Em quartas de cinzas, o que rima com o mardi gras é sexo casual. E cheiro de frango assado, temperado ao gosto dos pernambucanos. Ao gosto dos umbus de Larissa. A outras frutas que eu desejaria chupar. No deserto da alma da cidade, o que há de sobra é paladar, depois de outros sentidos para assaltar. E os tufos no asfalto, quase Arizona. Lugar de abandono. Poucas esperanças. Algumas nos textos de Lya Luft, outras no livro que o taxista lê. Mas se a significância for a renúncia, é nesse bloco que desfilo. E determino a roupa de baixo (que já levaram), a mídia de impacto e o efeito da ilusão. Da história da doce lichia a outras fotografias, é o que danço. É o fado do carnaval. Não sou pop, não tenho clipe no Youtube, não estou no BBB, não sou convidado ao Circo Voador, nem sou amigo de Madonna. Tenho palco embaixo do chuveiro, minha bermuda é Riachuelo, faço ritual para o cabelo e não sinto a menor empatia pelo público juvenil. Mas o que melhor sei fazer, além de ser hostil, é compartilhar. Uma novidade boa, uma promoção, uma carona ou um tempo à toa pra ouvir seu coração. Não convenci? Então vou fazer carão pra ser it-boy, mostrar a cueca ao sair do carro, ser junkie ou l'enfant terrible. Vou pra festa popular, ser do universo big star. Ser iconoclasta, gênio e contestador. Ter um amigo encantador pra um dia inspirador até o fim da Rua do Alecrim. Não tenho iPad, mas ainda é tão romântico folhear um livro de papel. Não tenho apartamento, mas pago a conta de luz das minhas memórias. Minha contribuição, portanto, é muito mais que a manteiga do mês. Não faço a ponte aérea, mas tenho tempo de sobra pra planejar. Vou do Marais, ou da Liberdade ao Paraná falar de estrelas. Sem ambições de trio elétrico, eu sonho. Quase sempre sou eu mesmo nos sonhos, mas desconfio se não serei, de fato, eu mesmo pra sempre, com a respiração cansada, uma queda pelo cinema obsceno e o vício troglodita do cigarro. Minha vida é uma escola deserta e de samba vice-campeão. Nessas ruas vazias, sem fantasia ou plateia na arquibancada, posso olhar o que ninguém ainda viu. Olhar via celular. Onde mais uma louca me perguntaria qual, de fato, é minha viagem, senão aqui? Não somos extraordinários, Ana Clara? "Não somos ordinários, como toda a miopia nos leva a crer", respondeu Eliane Brum em seu lugar. Sou, mesmo sem crédito, uma colagem de um tempo deliciosamente real. Dizer que meu coração tem a idade daquilo que amo, não me soa nada mal. É o carnaval que a gente vive, afinal.

Marco Antonio Jardim

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

PÍLULA DO BOBO NÁUFRAGO AO MAR - Número 37

Tela de Thomas Helbig

No ensaio geral que ando fazendo pra reabilitar meu convívio social, estou encontrando velhos e bons fantasmas. Não são visões quiméricas, fantasia ou coisa apavorante. É gente viva. É água do mar. Ainda que água seja aquela substância fugidia, sem a solidez de determinados afetos. Gente, entretanto, formiga por todo (en)canto. Chamo fantasmas porque, por vezes, parecem vultos ofuscados pela realidade do sol. Pois que não há sol sem sombras. Este, muitas vezes, irregular colosso que faz brilhar os fios meus de cabelos brancos, mal simulados pela tinta dourada de praia. Ao meu lado, Thay, amiga de meio tempo em tempo bom. Tudo que desejávamos era inventar, delirar, sonhar. Ganhar movimentos a outros mundos, levados pelos ventos de outros lances. Ela, a língua e o dialeto da franqueza. Eu, o menino nobreza de até a última gota de sol. Nós, combinação mútua que nem sempre se permuta. E o que tínhamos era só uma rua, uma Pituba de uma esquina a outra. Tentei mudar de passeio, meio-fio, e encontrei Ana, a que cospe frases em salivas repetidas. Eu com o poder de controlar os destinos com meus pensamentos. Só preciso mesmo que eles sejam bons. O mundo assim, creio, deve ser ideal. Nós, beleza sem par, ímpares e desiguais. Ah, se eu fosse tão contra as opiniões que concebo antes da razão, tanto quanto enfrento o bloqueio das questões do meu coração, seria menos bobo, seria eterno verão. Ainda que, de acordo a Clarice, o bobo é capaz de ficar sentado sem se mexer por um bom tempo. Se me questionam porque não faço algo, digo: eu faço, eu penso. E observo a estrangeira de cabelos curtíssimos platinados, pele cor de bronze, estendida com seu e-book numa canga estampada de praia da Resende. "Tonight, Tonight", ouvia. Neste conjunto de espaços, corpos, vidas, pranchas e embarcações, meu papel é coadjuvante. Sou só humano, enquanto os demais são interceptações de luz. Fico sempre assim, meio parvo, sempre branco caucasiano. E sou apresentado a Fábio. Ele, sob a claridade que precede o horizonte. Eu, corcunda, marcas nas costas, bobo. Nós, espoliadores de algum clássico ensolarado, como as canções de Foster The People. Eu e ele distantes na mesma medida da proximidade de Mari e Lucas, em laços quase conjugais. Se penso que nem é tão fácil unir distâncias, quiçá casar opiniões e entendimentos, visto o short jeans puído, prendo o cabelo no alto com cordão em coque japonês, ponho óculos escuros quadrados, sandálias de couro, tornozeleira de macramê, camiseta branca nodoada de bronzeador e vou, mãos espalmadas, despedir-me desses mares de arpoador. Tal qual a máscara estampada na camiseta de Cris. Ela, atleta aos quase 50. Eu? Não sei andar de bicicleta. Mas se não posso ser gringo, neo-hippie, surfar ou ter pele negra, posso ao menos fingir, cozer, criar. Aliar o medo a um pouco mais de fascinação. Pouco samba e um pouco mais de verão. Dormi para além das horas, sozinho, olhando pela varanda de desordenados caminhos. Ele, o sol, reavivado. Eu, subitamente elogiado, sorvendo suco de cupuaçu gelado diante da vista acachapante, da ponta de areia ao mirante, um dia transformador. Num tempo que furtou o brilho da parte antiga da cidade de ruas estreitas e azulejos desgastados para levar luz cintilante à vista do fim da tarde da Concha, entre conversações, Aleeve, garotos vestindo Biodiversity e as saias das Lívias, desnudo outra vez este mundo, camada por camada, como corpo vivo a se encerrar. À beira-mar, ainda tive alguma visão de beleza. Um casal. Eles, macho e fêmea urdidos. Eu, fodido, tramado num cigarro perdido, na tentativa de adestrar meu papel social diante de espantoso céu azul. E as coisas desejam ser vistas assim, de ave, entre o violeta e o verde suave, e não pelo prisma razoável de quem só direciona o olhar ao sul. Eu, experiência solitária, dei-me o direito de ser vão por um dia. Olhei ao norte, à Savona, ou, até antes disso, à ilha de Giglio, no litoral da Toscana. Mirei ao fulgor do Tirreno para crer numa verdade inventada. Por estes dias quentes, dei-me, sim, o direito de ser bobo e vivi nova vida formada. Bobos são como náufragos ao mar. Têm tempo de ver, ouvir e, o mundo, tocar.

Marco Antonio Jardim