segunda-feira, 11 de abril de 2011

PÍLULA DO EFEITO - Número 3

Na falta de um sítio eletrônico, de uma observação de valor ou minuciosa apreciação do mundo, na privação do feedback, da fama, da autopropaganda e até da poesia lírica, aquela de arrebatamento pessoal (ou puramente sentimental), que bom é voltar a escrever em algum lugar que todo mundo possa ver. Não tão vasto assim, vá lá. Mas, até onde a vista alcança, as pílulas têm rendido - e os efeitos quase farmacêuticos também. Uma tragada da substância ingerida: o jornalista Luís Salviato disse que o caos de mim desperta interesses. Vai saber, mas Pri França, que também tem se movido pela esfera do mundo, aproveitou pra pedir, direto da Alemanha, uma ligação entre meus pensamentos materializados e seu canal de ideias. Ou seja, nesta coisa de rede, só mesmo minha alma é que não se tornará palpável. O fato é que eu havia perdido o bonde aos 17, quando parei de escrever poesia no verso das provas. Depois disso eu só vivia a firular, iludir, distribuindo placebos com o que escrevia. Como numa defesa de logotipo. Recentemente fiz a de um coletivo de cinema-educação, o Kino. Viajei na maionese de um preparado inativo: falei de conjunção, objetivos comuns, formas geométricas, traços, fontes, cores e mais um monte de receitas para satisfazer o doente. Ops, o cliente. O fato é que minha precisão dava a garantia de que ele teria dificuldade entre escolher uma coisa ou outra. Foi um estudo controlado, mas com a pertinente observação: não gosto de maionese, prefiro creme de leite. Então, depois de longo tempo, as pessoas voltam a tomar as minhas drogas lícitas e afirmam: "Têm gosto de chiclete!", com o mesmo tom de quando eu afirmava o gosto por Biotônico Fontoura (sem Emulsão Scott, pelo amor de Deus!).  As pílulas, sim, são contagiosas. É como ouvir "Empire State of Mind" sem estar na 5ª Avenida, ou fechar os olhos para dançar Zoot Woman e, quando abri-los, descobrir que a pista é a do Zoo. Ok, tenho certo pendor para a autodepreciação, mas o sabor que fica no final é agradável, quase doce. Outro efeito novo é que estão me pedindo posicionamentos. Não insistam, porque quando falei da Subterrânea, por exemplo, foi uma tragédia. Teve quem passasse mal. Lembra daquele "produtor", bem a caráter do deslumbre, a quem chamavam de Gollum ou Sméagol? Pois é, foi um deles. Teve vertigem, cegueira momentânea, perturbações. Então é melhor que eu tenha certa adequação ao falar ou escrever. Cada átomo ou elemento químico das palavras têm de estar perfeitamente combinados para constituir um invólucro destes. Senão desanda, como mandinga. Tem gente próxima que tomou e mudou uma ideia, não migrou pra São Paulo, alugou apartamento novo e riu sozinha. Meu irmão, depois que ingeriu, ligou. Falou de dança sagrada, de mantras, de saudade e, claro, cobrou o agasalho que eu não quis devolver. Nalim cortou os cabelos bem curtos, passou a vender um artesanato mais elaborado, faz doces de gengibre e sabonetes de raízes do cerrado. Minhas cápsulas dão conta até do paradeiro de alguns, como o sulista Zé e a argentina Pâmela (ainda que ele insista em não tomar banho e ela em não usar absorvente). Pílula, portanto, é coisa feita pelo coração. Se existe razão? O que posso afirmar é que tem fórmula molecular. Tem consistência firme, globular. É tão lisérgica quanto uma sexta-feira em Nova York, mas não tão anticoncepcional. “Welcome to the bright light!”. Tradução livre: tome sua pílula.

Marco Antonio J. Melo

12 comentários:

  1. uhg sua autodepreciação leonina é tão auto-indulgente! rsrsrs eu adoro pq não é todo mundo que entende a tirania.

    sim pessoas, tirania! tomem as pílulas e se sintam fritas... ou envenenadas. se não entendeu, não se preocupe pq o veneno não de escorpião - isso é coisa de GP. aqui o negócio é mais fino, mais holandês.... mas não deixa de ser droga! hehehehe

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  2. Sua palavras as vezes me da uma coincidência de mim mesma sabia..
    rsrsrsrs

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  3. oi bonito! obrigado por ter deixado o recado lá no rosto-livro. é sempre bom lê-lo ;)
    sodade

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  4. Oi Marcos, tudo bem?
    Menino, gostei do espaço, tava na hora de colocar seus pensamentos num espaço mais "amplo", mais aberto, rs.

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  5. ê! vamos sambar nos restos mortais da humanidade.

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  6. Marco... adorei! Um dia tomarei coragem para iniciar tal aventura ou até mesmo roubar, mesmo que seja breve, um fragmento da tua sensibilidade e autenticidade, no intuito, de também colocar em movimento um pequeno barco de letras. Parabéns! Add aos meus favoritos... contudo.. me cotuque sempre q tiver pílulas!

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  7. Marco, obrigado por mais uma visita. É bom saber que as pílulas-palavras andam mexendo com pessoas e coisas por ai. Por mais despretensiosa que seja a escrita existe sempre a vaidade de ser vista e o poder de transformar. É a lei natural dos encontros, cada um fica com um tanto.
    Ah, só pra constar, tô morando em Aracaju, só vou a Itacaré em raras oportunidades pra rever minha mãe, em certa medida aquele lugar perdeu o encanto. Mas não deixa de ser lindo.
    Um abraço querido. Continuo seguindo...

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  8. O Marco Anjo é um verdadeiro membro da Escola Surrealista de Arte Literária.
    Quando tomo as pílulas dele, sinto saudade do surrealista que fui. Há quem diga que é Alzheimer. Minha avó tem.
    Hoje eu sou bem mais comportado. Resultado de editores e artistas pequenos que querem me ensinar sobre arte sem nem ao menos saber do que se trata. Nunca me deram espelho de nada. A não ser de como não ser como são.
    Bom, por causa dessas pípulas, eu já vendi minha televisão. Quebrei os espelhos de casa. Não leio jornal. As letras cujo me vejo, escrevo tão mal.
    Eu só consigo ver o pesadelo que consegui me tornar.
    Como lição de casa, vou deixar eles de lado. Eles quem? Eles (sei lá! Os aliens). Dar boas-vindas de novo ao desnexo, a graça/desgraça dos sonhos/pesadelos. E nesse mundo de flashs e recortes que é texto do intelecto surrealista, voltarei a primeira arte.
    Não. O surrealismo não foi a primeira arte (da história). Nem no Senhor dos Anéis, nem do Gollum. Oxalá da minha mente que nem minha é mais palha. O hobittse tossia Gollum. Mas bem que poderia tossir: Talesman, Talesman! E se engasgar subitamente vomitando-me.
    O Anjo salvou-me uma vez mais. Obrigado.
    Cláudio Talesman

    http://amentedeclaudiotalesman.blogspot.com
    O Lugar De Tudo Que Merece Ser Lembrado

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  9. me senti atraido pela parte do texto em que vc fecha os olhos, se imagina dançando e quando se percebe, esta na pista do zoo .
    isso foi a minha cara .
    e adorei o fato das pilulas estarem agora em um lugar mais amplo, mais visivel a todos .
    e como te digo, adoro ler seus textos, pq amo o jeito que vc escreve .
    todos os beijos .

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  10. quinho,
    adoro suas pilulas rs...
    vc tem um dom mesmo pra isso...
    sai tão natural,conforta as pessoas
    bjãooooooooooo

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  11. Vc sempre arrasa! Adorei Marquinhos!
    :)

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